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Autismo não falante ou minimamente verbal: como se comunicar no dia a dia

Ser autista não falante ou minimamente verbal significa usar pouca ou nenhuma fala para se comunicar.

Artigo Atualizado em 🕒 6 min de leitura

Visão geral

Ser autista não falante ou minimamente verbal significa usar pouca ou nenhuma fala para se comunicar. Isso não quer dizer que a pessoa não entende, não pensa ou não tem nada a dizer. Ela pode se comunicar pelo olhar, por gestos, por sons, por figuras, pela escrita ou por um aparelho com voz. O papel de quem convive é reconhecer essas formas, dar tempo e oferecer recursos, como a comunicação alternativa e aumentativa, com apoio de um fonoaudiólogo.

Não falar não significa não entender

Um erro comum é falar perto da pessoa autista como se ela não estivesse ali, ou supor que ela não compreende o que acontece. A compreensão e a fala são habilidades diferentes. Há pessoas que entendem bem e falam pouco; há pessoas que falam bastante e entendem menos do que parece; e há muitos jeitos no meio do caminho.

Também é difícil medir o que uma pessoa não falante sabe, porque muitos testes dependem de respostas faladas ou de seguir instruções de um jeito específico. Pesquisadoras como Helen Tager-Flusberg e Connie Kasari, em artigo de 2013, destacaram justamente isso: esse grupo é muito variado e foi pouco estudado, em parte porque é difícil avaliar suas habilidades de forma confiável. Por isso, a regra de ouro é presumir competência: tratar a pessoa como alguém capaz de entender e de ter opinião, explicando o que vai acontecer e pedindo a participação dela.

Que palavras usar

Não há um termo único, e as próprias pesquisas usam definições diferentes. Uma revisão sistemática de 2020 (Koegel e colegas) encontrou grande variação no que os estudos chamam de "não verbal" e "minimamente verbal".

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  • Não falante: não usa a fala oral como forma principal de comunicação. É o termo usado por parte da comunidade autista.
  • Minimamente verbal: usa poucas palavras ou frases curtas, às vezes só em situações conhecidas.
  • Não oralizado: termo usado no Brasil para quem não se comunica pela fala oral.
  • "Não verbal": é muito usado, mas pode confundir, porque "verbal" também inclui linguagem escrita e digitada, que algumas dessas pessoas usam bem.

Quando possível, pergunte à própria pessoa ou à família como preferem ser descritos. E lembre: a fala pode variar. Algumas pessoas falam em dias tranquilos e perdem a fala em momentos de estresse ou sobrecarga.

Quantas pessoas autistas falam pouco

A estimativa mais citada, do artigo de Tager-Flusberg e Kasari de 2013, é que cerca de 30% das crianças autistas continuam minimamente verbais mesmo depois de anos de intervenção. É uma estimativa, não uma contagem populacional, e varia conforme a definição usada.

Também é importante saber que a fala pode surgir mais tarde do que se espera. Um estudo publicado na revista Pediatrics em 2013 (Wodka e colegas) acompanhou 535 crianças autistas que não usavam frases aos 4 anos. Quando foram avaliadas, com 8 anos ou mais, 70% tinham passado a usar frases e 47% falavam com fluência. Isso não é uma promessa para todas as crianças, mas mostra que não há uma idade em que a porta se fecha.

Por que a fala pode não vir

Não há uma causa única. Entre as possibilidades que os profissionais investigam estão:

  • Dificuldades motoras da fala: planejar e coordenar os movimentos da boca, da língua e da respiração para formar palavras. Um estudo de 2019 (Chenausky e colegas), com 54 crianças e jovens autistas que falavam pouco, encontrou sinais de alteração motora da fala em parte deles, inclusive suspeita de apraxia de fala na infância. Esse tipo de dificuldade exige avaliação de fonoaudiólogo.
  • Diferenças sensoriais: excesso de barulho, luz ou toque pode deixar a pessoa sobrecarregada e sem condições de falar naquele momento.
  • Regulação e ansiedade: em estresse, a fala pode sumir mesmo em quem costuma falar.
  • Outras condições associadas: perda auditiva, deficiência intelectual ou epilepsia, por exemplo, que precisam ser investigadas pelo médico.

Por isso, antes de concluir que "é do autismo", vale fazer um exame de audição e uma avaliação completa da comunicação.

Formas de comunicação que a pessoa pode usar

FormaComo apareceComo responder
Olhar e corpoOlhar para o objeto, levar o adulto pela mão, afastar-seNomeie o que entendeu: "Você quer a água?" e confirme
Gestos e sinaisApontar, empurrar, sinais próprios ou de LibrasUse os mesmos gestos ao falar com a pessoa
Sons e ecolaliaRepetir frases ouvidas, cantar trechos, sons com significadoTrate como tentativa de comunicação e procure o sentido
Figuras e pranchasCartões, pastas de comunicação, rotina visualTenha o recurso sempre à mão e use-o você também
Escrita e digitaçãoEscrever, digitar no celular ou tabletDê tempo e não complete a frase por ela
Aparelhos com vozAplicativos de comunicação em tabletDeixe carregado e disponível em todos os lugares

Comportamentos como gritar, morder ou se jogar no chão também podem ser formas de comunicar dor, medo ou "não aguento mais". Em vez de só tentar parar o comportamento, procure entender o que ele está dizendo.

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Erros comuns e o que fazer no lugar

  • Fazer perguntas abertas demais, como "o que você quer?". Ofereça escolhas: "suco ou água?", mostrando os dois ou as figuras.
  • Ter pressa. Depois de perguntar, espere em silêncio. Algumas pessoas precisam de vários segundos para processar e responder.
  • Falar demais de uma vez. Use frases curtas, uma instrução por vez, apoiadas por gestos ou figuras.
  • Exigir que fale para receber algo, como "só ganha se disser 'biscoito'". Aceite qualquer forma de pedido.
  • Esconder o recurso de comunicação ou tirá-lo como castigo. É a voz da pessoa.
  • Falar dela na frente dela. Inclua a pessoa na conversa, olhando para ela e explicando o que está acontecendo.

Passo a passo para o dia a dia

  1. Observe por alguns dias como a pessoa já se comunica. Anote sinais, sons e gestos e o que cada um parece querer dizer.
  2. Combine com a família e a escola um "dicionário" desses sinais, para todos responderem do mesmo jeito.
  3. Monte uma rotina com figuras para as atividades do dia. Nossa ferramenta de rotina visual ajuda a criar e imprimir.
  4. Ofereça escolhas várias vezes ao dia: roupas, brincadeiras, comidas.
  5. Ensine formas de dizer "não", "pausa", "ajuda" e "acabou". Elas reduzem a frustração e protegem a pessoa.
  6. Comemore cada tentativa de comunicação, com qualquer recurso.

Saiba mais sobre pranchas, aplicativos e PECS no nosso artigo sobre comunicação alternativa e aumentativa.

Quando procurar fonoaudiologia e qual é o direito

Procure um fonoaudiólogo se a criança não fala ou fala muito pouco para a idade, se perdeu palavras que já usava, se a família não consegue entender o que ela quer ou se há muitas crises ligadas à frustração. Adolescentes e adultos também podem começar a usar comunicação alternativa a qualquer momento.

No SUS, o caminho começa na Unidade Básica de Saúde, que pode encaminhar para centros de reabilitação e outros serviços especializados. Nos planos de saúde, as sessões de fonoaudiologia para pessoas com diagnóstico de autismo não têm limite de número, segundo regras da ANS.

A comunicação é um direito. A Lei 15.249/2025 reconheceu no Estatuto da Pessoa com Deficiência a pessoa com necessidades complexas de comunicação e determinou que os serviços públicos de saúde implantem sistemas de comunicação alternativa de baixa tecnologia e capacitem suas equipes. A mesma lei incluiu esses sistemas no atendimento educacional especializado nas escolas.

Fontes