Camuflagem social, também chamada de masking, é o conjunto de estratégias que muitas pessoas autistas usam para esconder ou compensar suas características em situações sociais, com o objetivo de se encaixar e evitar rejeição. Pode ser forçar o contato visual, decorar frases prontas ou segurar um movimento que acalma. A pesquisa associa a camuflagem frequente a exaustão, ansiedade, depressão e diagnóstico tardio.
O que é camuflagem social
Quase todo mundo ajusta o comportamento conforme o ambiente: ninguém fala com o chefe como fala com um amigo. A camuflagem no autismo vai além disso. Ela envolve monitorar o tempo todo o próprio corpo, a voz e as reações para parecer "como os outros", muitas vezes à custa de conforto e de bem-estar.
Um estudo qualitativo de 2017, com 92 adultos autistas, descreveu a camuflagem como um processo em três etapas: primeiro, a motivação (querer se encaixar e criar laços); depois, as técnicas usadas; e, por fim, as consequências, de curto e de longo prazo, como exaustão e dúvidas sobre a própria identidade.
As três formas descritas pela pesquisa
O mesmo grupo de pesquisadores criou, em 2019, um questionário para medir a camuflagem, chamado CAT-Q. A análise dos dados de centenas de adultos mostrou três tipos de estratégia:
| Forma | O que é | Exemplos |
|---|---|---|
| Compensação | Estratégias para contornar dificuldades sociais | Ensaiar conversas antes; estudar expressões faciais; ter "roteiros" para situações comuns; copiar gestos de outras pessoas |
| Mascaramento | Esconder características autistas ou apresentar uma "persona" não autista | Forçar contato visual; segurar movimentos repetitivos; controlar o tom de voz; esconder interesses intensos |
| Assimilação | Tentar se misturar ao grupo, mesmo sem se sentir à vontade | Participar de conversas por obrigação; fingir que está tudo bem; evitar pedir ajuda para não chamar atenção |
Essas formas costumam aparecer juntas, e cada pessoa camufla de um jeito e em intensidades diferentes.
Quem camufla mais
Os primeiros estudos sugeriram que mulheres autistas camuflariam mais do que homens. Um estudo de 2017 com 60 adultos sem deficiência intelectual encontrou, em média, mais camuflagem entre as mulheres, mas com grande variação dentro dos dois grupos. Uma revisão sistemática de 2021, com 29 estudos, concluiu que há diferenças de sexo e gênero, mas alertou que as pesquisas têm amostras pouco representativas e que as conclusões não podem ser aplicadas à comunidade autista como um todo.
Por isso, é melhor evitar generalizações. Homens, mulheres, pessoas não binárias, crianças e adultos podem camuflar. Uma revisão de 2023, com 58 estudos, observou que a maioria dos participantes eram mulheres brancas, com diagnóstico tardio e boa capacidade verbal. Pouco se sabe sobre a camuflagem em outros grupos, como pessoas com maior necessidade de suporte.
Os custos da camuflagem
Camuflar pode trazer ganhos imediatos, como evitar provocações, conseguir um emprego ou manter amizades. A revisão de 2023 descreve a camuflagem também como uma forma de a pessoa exercer algum controle sobre a própria vida num mundo pouco adaptado. Mas os estudos apontam um preço alto quando ela é constante:
- Cansaço: monitorar a si mesmo o tempo todo consome muita energia. Muitos adultos contam que precisam de horas ou dias para se recuperar de eventos sociais.
- Saúde mental: a revisão de 2021 encontrou associação entre mais camuflagem relatada e pior saúde mental, incluindo ansiedade e depressão. Associação não prova que uma coisa causa a outra, mas o sinal se repete em vários estudos.
- Burnout autista: um estudo de 2020 feito com a participação de adultos autistas descreveu o burnout autista como exaustão prolongada, perda de habilidades e menor tolerância a estímulos, que surge quando as exigências passam das capacidades sem apoio suficiente. Os participantes citaram a possibilidade de "deixar a máscara de lado" como parte da recuperação.
- Diagnóstico tardio: quando as dificuldades ficam escondidas, familiares, professores e profissionais podem não perceber o autismo. Muitas pessoas só são avaliadas na vida adulta.
- Identidade: depois de anos se adaptando, algumas pessoas relatam não saber mais quais são seus gostos e jeitos "de verdade".
Se a sensação de exaustão vier junto com tristeza profunda, desesperança ou pensamentos de morte, procure ajuda: CVV no 188 (gratuito, 24 horas) ou SAMU no 192.
Adaptar-se ou esconder-se: qual a diferença
Nem todo ajuste é prejudicial. Aprender uma forma educada de encerrar uma conversa, por exemplo, pode ser útil e escolhido pela própria pessoa. A diferença está em algumas perguntas:
- A estratégia foi escolhida por mim ou imposta pelo medo de ser rejeitado?
- Ela me ajuda a alcançar algo que eu quero, ou só esconde quem eu sou?
- Consigo mantê-la sem me esgotar?
- Existem lugares onde posso deixá-la de lado?
Quando a camuflagem é a única opção disponível o dia inteiro, em todos os lugares, o risco de esgotamento aumenta. O objetivo não é proibir a camuflagem, mas ampliar a liberdade de escolha.
Ambientes onde não é preciso camuflar
A revisão de 2023 concluiu que a camuflagem é, antes de tudo, uma resposta à pressão social, e que a solução passa por uma sociedade que aceite as pessoas autistas como são. No dia a dia, isso se traduz em espaços seguros:
- Em casa: permitir movimentos repetitivos, silêncio, pausas e conversas sobre os interesses da pessoa sem julgamento.
- Com amigos: combinar encontros mais curtos, em locais tranquilos, com liberdade para sair quando precisar.
- Na escola e no trabalho: adaptações como instruções por escrito, menos ruído, reuniões com pauta prévia e possibilidade de pausas.
- Na comunidade autista: grupos de pessoas autistas costumam ser lugares onde a camuflagem é menos necessária.
Como família e parceiros podem ajudar
- Acredite no cansaço. Se a pessoa parece "ótima" na festa e desaba depois, o esforço foi real.
- Combine sinais. Uma palavra ou gesto discreto para avisar que é hora de ir embora ou de fazer uma pausa.
- Planeje recuperação. Depois de dias com muita demanda social, reserve tempo sem compromissos.
- Não corrija o jeito autista sem necessidade. Evite pedir que olhe nos olhos, pare de balançar ou "aja normalmente".
- Valorize os interesses. Eles costumam ser fonte de prazer e regulação, não algo a esconder.
- Apoie a busca por ajuda. Psicoterapia com profissional que conheça o autismo pode ajudar a pessoa a entender quando e como quer camuflar.
Com crianças, vale observar se ela "segura" o dia todo na escola e desaba em casa. Isso não quer dizer que a família está fazendo algo errado: muitas vezes, a casa é justamente o lugar seguro onde a máscara cai. Contar isso à escola ajuda a pensar em pausas e adaptações. Uma rotina visual pode reduzir a incerteza do dia e, com ela, parte do esforço.
O que a pesquisa ainda não sabe
A camuflagem é um tema recente na ciência. As formas de medir ainda estão sendo aperfeiçoadas, e a maior parte dos estudos é de países de língua inglesa, com adultos que conseguem responder questionários longos. Faltam pesquisas no Brasil e com pessoas que se comunicam de outras formas. O que já se sabe é suficiente para levar a sério o relato de quem diz que viver camuflando cansa.
Fontes
- Hull L e cols. — "Putting on my best normal": social camouflaging in adults with autism spectrum conditions, J Autism Dev Disord (2017)
- Hull L e cols. — Development and validation of the Camouflaging Autistic Traits Questionnaire (CAT-Q), J Autism Dev Disord (2019)
- Lai MC e cols. — Quantifying and exploring camouflaging in men and women with autism, Autism (2017)
- Cook J, Hull L, Crane L, Mandy W — Camouflaging in autism: a systematic review, Clinical Psychology Review (2021)
- Zhuang S e cols. — Psychosocial factors associated with camouflaging in autistic people and its relationship with mental health and well-being, Clinical Psychology Review (2023)
- Raymaker DM e cols. — Defining autistic burnout, Autism in Adulthood (2020)
Este artigo foi útil?
Obrigado pela resposta! Encontrou algum erro? Conte para nós.