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Comorbidades do autismo: quais são mais comuns e como identificá-las

Comorbidades são outras condições de saúde que aparecem junto com o autismo, como TDAH, ansiedade, epilepsia, problemas de sono e problemas digestivos.

Artigo Atualizado em 🕒 6 min de leitura

Visão geral

Comorbidades são outras condições de saúde que aparecem junto com o autismo, como TDAH, ansiedade, epilepsia, problemas de sono e problemas digestivos. Elas são muito frequentes: em um grande estudo norte-americano, cerca de três em cada quatro crianças autistas tinham pelo menos uma outra condição diagnosticada. Identificá-las importa porque muitas têm tratamento e, quando ficam sem cuidado, pioram a qualidade de vida e são confundidas com "jeito do autismo".

O que é comorbidade (e o que não é)

Comorbidade é um diagnóstico a mais, que existe ao lado do autismo e tem critérios próprios. A epilepsia, por exemplo, é uma condição neurológica que pode acontecer em pessoas autistas e não autistas.

Características que fazem parte do próprio autismo não são comorbidades. Ecolalia (repetir falas), movimentos repetitivos, interesses intensos e diferenças sensoriais estão dentro do quadro do autismo. Isso não quer dizer que não mereçam apoio, mas não são "outra doença".

Outro ponto importante: até 2013, o manual de diagnóstico não permitia dar ao mesmo tempo os diagnósticos de autismo e de TDAH. O DSM-5 retirou essa restrição, porque as duas condições aparecem juntas com frequência.

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Com que frequência aparecem

Os números variam conforme o estudo, a idade e o jeito de coletar os dados. Dois trabalhos grandes ajudam a dar uma ideia:

  • Estudo SPARK (Estados Unidos, 2023): com mais de 40 mil crianças e adolescentes autistas, a partir de diagnósticos informados pelos pais, 74% tinham pelo menos uma comorbidade. As mais comuns foram TDAH (35%), dificuldade de aprendizagem (24%) e deficiência intelectual (22%). Os irmãos não autistas tinham bem menos comorbidades.
  • Meta-análise da Lancet Psychiatry (2019): reuniu estudos com pessoas autistas de várias idades e estimou as condições de saúde mental mais frequentes.
CondiçãoEstimativa média em pessoas autistas (Lai et al., 2019)
TDAH28%
Transtornos de ansiedade20%
Transtornos do sono e da vigília13%
Transtornos disruptivos e de conduta12%
Transtornos depressivos11%
Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)9%
Transtorno bipolar5%
Transtornos do espectro da esquizofrenia4%

Esses percentuais são médias de estudos muito diferentes entre si. Servem para mostrar o que vale investigar, não para prever o caso de uma pessoa.

As comorbidades mais comuns

TDAH

Desatenção, impulsividade e agitação acima do esperado. Atrapalham a escola e a rotina, e podem ser tratadas com estratégias comportamentais, adaptações e, se indicado pelo médico, medicamentos.

Ansiedade e depressão

Aparecem muito como mudança de comportamento: mais crises, recusa de lugares, isolamento, perda de interesse. Leia nosso artigo sobre ansiedade e depressão no autismo para conhecer os sinais de alerta.

TOC

Pensamentos indesejados e rituais feitos para aliviar o medo, com sofrimento. É diferente dos interesses e repetições do autismo, que em geral trazem prazer ou calma.

Epilepsia

Uma revisão sistemática de 2019 encontrou epilepsia em cerca de 12% das pessoas autistas nos estudos analisados (mediana), bem acima do que se observa na população em geral. Sinais de alerta: episódios de olhar parado com perda de contato, movimentos involuntários, quedas sem motivo, perda de habilidades, sonolência estranha depois de um episódio. Filmar o episódio com o celular ajuda o neurologista.

Problemas de sono

Demora para dormir, despertares à noite e acordar muito cedo são frequentes. Apneia, refluxo e dor podem estar por trás.

Problemas digestivos

Prisão de ventre, diarreia, dor abdominal e refluxo. Uma revisão de 2018 mostrou que as frequências relatadas variam enormemente entre os estudos (de 4% a mais de 90%, conforme o sintoma e o método), por isso não existe um número único confiável. O que se sabe é que esses problemas são comuns e muitas vezes passam sem diagnóstico.

Seletividade alimentar e TARE

Aceitar poucos alimentos é comum. Quando causa perda de peso, falta de nutrientes ou prejuízo importante na vida, é preciso investigar o transtorno alimentar restritivo/evitativo (TARE).

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Deficiência intelectual e dificuldades de aprendizagem

Podem acompanhar o autismo, mas não fazem parte dele obrigatoriamente. Muitas pessoas autistas não têm deficiência intelectual. A avaliação ajuda a planejar o apoio na escola.

Por que passam despercebidas

  • "Ofuscamento diagnóstico": tudo é atribuído ao autismo. Uma crise nova vira "coisa do autismo", quando pode ser dor, ansiedade ou uma crise epiléptica.
  • Comunicação: a pessoa pode não conseguir dizer onde dói ou o que sente.
  • Percepção diferente do corpo: algumas pessoas autistas demoram a perceber dor, fome ou mal-estar.
  • Consultas difíceis: barulho, espera e exame físico podem ser insuportáveis, e a consulta acaba sem avaliação completa.
  • Pouco conhecimento sobre autismo entre profissionais de saúde, uma barreira apontada pela Organização Mundial da Saúde.

Atenção à dor

Pessoas autistas podem expressar dor de formas inesperadas: bater na cabeça, morder a mão, ficar mais agitadas, parar de comer, dormir mal, recusar uma atividade ou ficar quietas demais. Qualquer mudança de comportamento sem explicação deve levar a uma checagem física. As causas mais comuns são dor de dente, otite, prisão de ventre, refluxo, infecção urinária, machucados e cólica menstrual. Consultas regulares ao dentista e ao pediatra ou clínico são parte do cuidado.

Como identificar: passo a passo

  1. Conheça o "normal" da pessoa: sono, apetite, humor, comunicação, habilidades. A mudança em relação a isso é o sinal mais útil.
  2. Registre: quando começou, frequência, horários, o que acontece antes e depois. O diário de comportamento e sono ajuda nessa tarefa.
  3. Filme episódios estranhos (movimentos, olhar parado) para mostrar ao médico.
  4. Peça avaliação física antes de concluir que é "comportamento".
  5. Prepare a consulta: leve lista de remédios, anotações e perguntas. Peça o primeiro horário ou um lugar calmo para esperar. Antecipe a consulta com figuras na rotina visual.
  6. Pergunte diretamente: "pode ser TDAH?", "pode ser ansiedade?", "precisamos investigar epilepsia ou sono?".

A equipe de cuidado

ProfissionalPode ajudar com
Pediatra ou médico de famíliaVisão geral, dor, problemas digestivos, sono, encaminhamentos
Neurologista ou neuropediatraEpilepsia, sono, TDAH
Psiquiatra (infância ou adulto)Ansiedade, depressão, TOC, TDAH, avaliação de medicamentos
PsicólogoTerapias adaptadas para ansiedade, depressão e comportamento
Gastroenterologista e nutricionistaPrisão de ventre, refluxo, seletividade alimentar
DentistaDor de dente e saúde da boca
Fonoaudiólogo e terapeuta ocupacionalComunicação, alimentação, questões sensoriais

Depois de um novo diagnóstico, peça ao profissional que explique por escrito o que muda na rotina, quais sinais indicam piora e quando voltar. Se for indicado um remédio, pergunte para que serve, quais efeitos colaterais observar e por quanto tempo será usado, e informe todos os outros medicamentos e suplementos em uso. Compartilhe com a escola só o que for útil para o dia a dia, como o que fazer em uma crise convulsiva. Guarde laudos e exames em uma pasta única, de papel ou no celular, para levar a todas as consultas.

No SUS, a Unidade Básica de Saúde é a porta de entrada e faz os encaminhamentos. O ideal é que alguém da equipe coordene o cuidado, para que as informações não se percam entre os profissionais.

Existem em todos os níveis de suporte

Comorbidades aparecem em pessoas autistas com qualquer nível de suporte, em crianças e em adultos. Uma pessoa que fala bem e estuda ou trabalha também pode ter ansiedade, epilepsia ou problemas digestivos, e às vezes o diagnóstico demora justamente porque ninguém suspeita. Nenhum nível de suporte está livre delas. Por isso, a saúde geral e a saúde mental devem fazer parte do acompanhamento de toda pessoa autista. Em emergência, como uma crise convulsiva que não para, ligue para o SAMU, no 192.

Fontes