Comorbidades são outras condições de saúde que aparecem junto com o autismo, como TDAH, ansiedade, epilepsia, problemas de sono e problemas digestivos. Elas são muito frequentes: em um grande estudo norte-americano, cerca de três em cada quatro crianças autistas tinham pelo menos uma outra condição diagnosticada. Identificá-las importa porque muitas têm tratamento e, quando ficam sem cuidado, pioram a qualidade de vida e são confundidas com "jeito do autismo".
O que é comorbidade (e o que não é)
Comorbidade é um diagnóstico a mais, que existe ao lado do autismo e tem critérios próprios. A epilepsia, por exemplo, é uma condição neurológica que pode acontecer em pessoas autistas e não autistas.
Características que fazem parte do próprio autismo não são comorbidades. Ecolalia (repetir falas), movimentos repetitivos, interesses intensos e diferenças sensoriais estão dentro do quadro do autismo. Isso não quer dizer que não mereçam apoio, mas não são "outra doença".
Outro ponto importante: até 2013, o manual de diagnóstico não permitia dar ao mesmo tempo os diagnósticos de autismo e de TDAH. O DSM-5 retirou essa restrição, porque as duas condições aparecem juntas com frequência.
Com que frequência aparecem
Os números variam conforme o estudo, a idade e o jeito de coletar os dados. Dois trabalhos grandes ajudam a dar uma ideia:
- Estudo SPARK (Estados Unidos, 2023): com mais de 40 mil crianças e adolescentes autistas, a partir de diagnósticos informados pelos pais, 74% tinham pelo menos uma comorbidade. As mais comuns foram TDAH (35%), dificuldade de aprendizagem (24%) e deficiência intelectual (22%). Os irmãos não autistas tinham bem menos comorbidades.
- Meta-análise da Lancet Psychiatry (2019): reuniu estudos com pessoas autistas de várias idades e estimou as condições de saúde mental mais frequentes.
| Condição | Estimativa média em pessoas autistas (Lai et al., 2019) |
|---|---|
| TDAH | 28% |
| Transtornos de ansiedade | 20% |
| Transtornos do sono e da vigília | 13% |
| Transtornos disruptivos e de conduta | 12% |
| Transtornos depressivos | 11% |
| Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) | 9% |
| Transtorno bipolar | 5% |
| Transtornos do espectro da esquizofrenia | 4% |
Esses percentuais são médias de estudos muito diferentes entre si. Servem para mostrar o que vale investigar, não para prever o caso de uma pessoa.
As comorbidades mais comuns
TDAH
Desatenção, impulsividade e agitação acima do esperado. Atrapalham a escola e a rotina, e podem ser tratadas com estratégias comportamentais, adaptações e, se indicado pelo médico, medicamentos.
Ansiedade e depressão
Aparecem muito como mudança de comportamento: mais crises, recusa de lugares, isolamento, perda de interesse. Leia nosso artigo sobre ansiedade e depressão no autismo para conhecer os sinais de alerta.
TOC
Pensamentos indesejados e rituais feitos para aliviar o medo, com sofrimento. É diferente dos interesses e repetições do autismo, que em geral trazem prazer ou calma.
Epilepsia
Uma revisão sistemática de 2019 encontrou epilepsia em cerca de 12% das pessoas autistas nos estudos analisados (mediana), bem acima do que se observa na população em geral. Sinais de alerta: episódios de olhar parado com perda de contato, movimentos involuntários, quedas sem motivo, perda de habilidades, sonolência estranha depois de um episódio. Filmar o episódio com o celular ajuda o neurologista.
Problemas de sono
Demora para dormir, despertares à noite e acordar muito cedo são frequentes. Apneia, refluxo e dor podem estar por trás.
Problemas digestivos
Prisão de ventre, diarreia, dor abdominal e refluxo. Uma revisão de 2018 mostrou que as frequências relatadas variam enormemente entre os estudos (de 4% a mais de 90%, conforme o sintoma e o método), por isso não existe um número único confiável. O que se sabe é que esses problemas são comuns e muitas vezes passam sem diagnóstico.
Seletividade alimentar e TARE
Aceitar poucos alimentos é comum. Quando causa perda de peso, falta de nutrientes ou prejuízo importante na vida, é preciso investigar o transtorno alimentar restritivo/evitativo (TARE).
Deficiência intelectual e dificuldades de aprendizagem
Podem acompanhar o autismo, mas não fazem parte dele obrigatoriamente. Muitas pessoas autistas não têm deficiência intelectual. A avaliação ajuda a planejar o apoio na escola.
Por que passam despercebidas
- "Ofuscamento diagnóstico": tudo é atribuído ao autismo. Uma crise nova vira "coisa do autismo", quando pode ser dor, ansiedade ou uma crise epiléptica.
- Comunicação: a pessoa pode não conseguir dizer onde dói ou o que sente.
- Percepção diferente do corpo: algumas pessoas autistas demoram a perceber dor, fome ou mal-estar.
- Consultas difíceis: barulho, espera e exame físico podem ser insuportáveis, e a consulta acaba sem avaliação completa.
- Pouco conhecimento sobre autismo entre profissionais de saúde, uma barreira apontada pela Organização Mundial da Saúde.
Atenção à dor
Pessoas autistas podem expressar dor de formas inesperadas: bater na cabeça, morder a mão, ficar mais agitadas, parar de comer, dormir mal, recusar uma atividade ou ficar quietas demais. Qualquer mudança de comportamento sem explicação deve levar a uma checagem física. As causas mais comuns são dor de dente, otite, prisão de ventre, refluxo, infecção urinária, machucados e cólica menstrual. Consultas regulares ao dentista e ao pediatra ou clínico são parte do cuidado.
Como identificar: passo a passo
- Conheça o "normal" da pessoa: sono, apetite, humor, comunicação, habilidades. A mudança em relação a isso é o sinal mais útil.
- Registre: quando começou, frequência, horários, o que acontece antes e depois. O diário de comportamento e sono ajuda nessa tarefa.
- Filme episódios estranhos (movimentos, olhar parado) para mostrar ao médico.
- Peça avaliação física antes de concluir que é "comportamento".
- Prepare a consulta: leve lista de remédios, anotações e perguntas. Peça o primeiro horário ou um lugar calmo para esperar. Antecipe a consulta com figuras na rotina visual.
- Pergunte diretamente: "pode ser TDAH?", "pode ser ansiedade?", "precisamos investigar epilepsia ou sono?".
A equipe de cuidado
| Profissional | Pode ajudar com |
|---|---|
| Pediatra ou médico de família | Visão geral, dor, problemas digestivos, sono, encaminhamentos |
| Neurologista ou neuropediatra | Epilepsia, sono, TDAH |
| Psiquiatra (infância ou adulto) | Ansiedade, depressão, TOC, TDAH, avaliação de medicamentos |
| Psicólogo | Terapias adaptadas para ansiedade, depressão e comportamento |
| Gastroenterologista e nutricionista | Prisão de ventre, refluxo, seletividade alimentar |
| Dentista | Dor de dente e saúde da boca |
| Fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional | Comunicação, alimentação, questões sensoriais |
Depois de um novo diagnóstico, peça ao profissional que explique por escrito o que muda na rotina, quais sinais indicam piora e quando voltar. Se for indicado um remédio, pergunte para que serve, quais efeitos colaterais observar e por quanto tempo será usado, e informe todos os outros medicamentos e suplementos em uso. Compartilhe com a escola só o que for útil para o dia a dia, como o que fazer em uma crise convulsiva. Guarde laudos e exames em uma pasta única, de papel ou no celular, para levar a todas as consultas.
No SUS, a Unidade Básica de Saúde é a porta de entrada e faz os encaminhamentos. O ideal é que alguém da equipe coordene o cuidado, para que as informações não se percam entre os profissionais.
Existem em todos os níveis de suporte
Comorbidades aparecem em pessoas autistas com qualquer nível de suporte, em crianças e em adultos. Uma pessoa que fala bem e estuda ou trabalha também pode ter ansiedade, epilepsia ou problemas digestivos, e às vezes o diagnóstico demora justamente porque ninguém suspeita. Nenhum nível de suporte está livre delas. Por isso, a saúde geral e a saúde mental devem fazer parte do acompanhamento de toda pessoa autista. Em emergência, como uma crise convulsiva que não para, ligue para o SAMU, no 192.
Fontes
- Khachadourian V. et al. — Comorbidities in autism spectrum disorder and their etiologies, Translational Psychiatry 13:71 (2023)
- Lai M.-C. et al. — Prevalence of co-occurring mental health diagnoses in the autism population: a systematic review and meta-analysis, Lancet Psychiatry (2019)
- Lukmanji S. et al. — The co-occurrence of epilepsy and autism: a systematic review, Epilepsy & Behavior (2019)
- Holingue C. et al. — Gastrointestinal symptoms in autism spectrum disorder: a review of the literature on ascertainment and prevalence, Autism Research (2018)
- Organização Mundial da Saúde — Autism (ficha informativa, 2025)
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