Comunicação alternativa e aumentativa (CAA) é todo recurso que ajuda uma pessoa a se comunicar quando a fala não é suficiente: gestos, sinais, figuras, pranchas, cartões, aplicativos e aparelhos que falam. Ela pode ser usada por pessoas autistas de qualquer idade, e não é preciso esperar a fala "não vir" para começar. As revisões científicas mostram que a CAA não atrapalha o desenvolvimento da fala; em muitos casos, a fala até aumenta. O PECS, sistema de comunicação por troca de figuras, é um dos tipos mais conhecidos.
O que é CAA
"Aumentativa" quer dizer que o recurso soma à fala que já existe. "Alternativa" quer dizer que ele substitui a fala quando ela não está disponível. Muitas pessoas usam as duas coisas, conforme o momento: falam em casa, mas usam a prancha quando estão cansadas ou ansiosas, por exemplo.
Os recursos costumam ser divididos assim:
| Tipo | Exemplos | Vantagens |
|---|---|---|
| Sem apoio externo | Gestos, expressões, sinais manuais, Libras | Vão com a pessoa a qualquer lugar; dependem de quem está ao redor conhecer os sinais |
| Baixa tecnologia | Cartões com figuras, pranchas, pastas de comunicação, cartões de "pausa" ou "ajuda" | Baratos, não precisam de bateria, fáceis de levar e de adaptar |
| Alta tecnologia | Tablets com aplicativos de comunicação, aparelhos que reproduzem voz | Grande vocabulário, voz audível, possibilidade de formar frases |
Não existe um recurso "melhor". A escolha depende das habilidades motoras, visuais e de atenção da pessoa, dos lugares que ela frequenta e do que a família consegue manter. É comum combinar mais de um.
O mito de que figuras atrapalham a fala
Muitas famílias temem que, se a criança usar figuras, ela "fique preguiçosa" e não fale. A pesquisa não confirma esse medo.
- Uma revisão de 2006 (Millar, Light e Schlosser) analisou estudos com pessoas com deficiências do desenvolvimento, a maioria autistas ou com deficiência intelectual. Nos casos com melhor qualidade de estudo, nenhum mostrou queda da fala depois da CAA, e a maioria mostrou algum ganho.
- Uma revisão de 2008 (Schlosser e Wendt), só com crianças autistas, concluiu que a CAA não impede a fala e pode aumentá-la, embora os ganhos de fala tenham sido modestos.
- Uma revisão de 2021 (White e colegas), que atualizou a anterior com estudos até 2020, também encontrou melhora na produção de fala com a CAA. Os ganhos de fala, porém, não superaram o uso da própria CAA.
A mensagem é dupla. Primeiro, a CAA não prejudica a fala. Segundo, ela não deve ser usada só como "ponte" até a fala chegar: para muitas pessoas, é a forma principal de comunicação e merece ser valorizada como tal.
Quando começar
O melhor momento é quando se percebe que a criança tem dificuldade para se fazer entender, seja pela idade, seja pela frustração que aparece. Não há idade mínima nem pré-requisito, como "primeiro aprender a apontar" ou "primeiro ficar sentada". Começar cedo dá à criança um jeito de pedir, recusar e mostrar o que sente, o que pode diminuir crises causadas pela frustração de não ser compreendida.
A Linha de Cuidado do Ministério da Saúde (2025) cita a CAA, como pictogramas, cartões de crise e dispositivos eletrônicos, entre os recursos que podem facilitar a expressão das necessidades e reduzir situações de crise.
Sistemas amplos e vocabulário central
Uma prancha com poucas figuras de comida e brinquedo ajuda a pedir coisas, mas limita o que a pessoa pode dizer. Comunicação é muito mais do que pedir: inclui recusar, comentar, perguntar, contar o que aconteceu e brincar.
Por isso, fonoaudiólogos costumam recomendar sistemas com vocabulário central: palavras curtas e muito usadas em qualquer situação, como "mais", "não", "quero", "acabou", "eu", "ir", "ajuda" e "olha". Combinadas, elas permitem muitas mensagens. Palavras específicas (nomes de comidas, lugares e pessoas) completam o sistema.
Modelagem: o adulto também usa
Ninguém aprende uma língua sem ouvir os outros falando. Com a CAA é igual. Modelar significa o adulto usar o sistema enquanto fala com a criança: tocar "mais" na prancha ao dizer "quer mais?", ou "acabou" ao fechar o livro. A criança não precisa repetir nem acertar. Ela vai observando e, com o tempo, experimenta.
Dicas para modelar:
- Deixe o recurso sempre à mão, em todos os ambientes.
- Use uma ou duas palavras por vez, sem pressão.
- Responda a qualquer tentativa de comunicação, mesmo que a figura escolhida não seja a "certa".
- Nunca tire a prancha como castigo. É a voz da criança.
O que é o PECS e quais são suas fases
O PECS (sigla em inglês para Sistema de Comunicação por Troca de Figuras) foi criado em 1985 nos Estados Unidos por Andy Bondy e Lori Frost, e usado primeiro com crianças autistas em idade pré-escolar. A criança aprende a entregar a figura do que deseja para outra pessoa, o que ensina desde o início que comunicação é algo que se faz com alguém.
O protocolo oficial tem seis fases, com um módulo extra de ampliação da linguagem entre a quarta e a quinta fase:
- Como se comunicar: entregar uma figura em troca do item desejado.
- Distância e persistência: buscar a figura e a pessoa, mesmo que estejam mais longe.
- Discriminação de figuras: escolher entre duas ou mais figuras.
- Estrutura da frase: montar "eu quero" + figura em uma tira de frase.
- Responder a perguntas: responder a "o que você quer?".
- Comentar: usar frases como "eu vejo" ou "eu tenho" para comentar, não só pedir.
Entre a quarta e a quinta fase, o protocolo inclui atributos e ampliação da linguagem, com cores, tamanhos, verbos e preposições. Algumas pessoas que usam PECS passam a falar mais; outras migram para um aparelho com voz. O PECS é um caminho possível, não o único: há pessoas que se adaptam melhor a pranchas, sinais ou tablets desde o início.
Quem monta o sistema e como usar no dia a dia
O fonoaudiólogo é o profissional que costuma avaliar a comunicação e indicar o sistema. O terapeuta ocupacional ajuda quando há dificuldades motoras para tocar, apontar ou segurar cartões, ou para posicionar o tablet. A escola e a família precisam participar desde o começo, porque o sistema só funciona se estiver presente em todos os lugares.
- Em casa: deixe pranchas na cozinha, no banheiro e no quarto. Use figuras na rotina visual, como na nossa ferramenta de rotina visual.
- Na escola: combine com o professor as mesmas figuras e palavras. A Lei Brasileira de Inclusão, alterada pela Lei 15.249/2025, inclui sistemas de CAA de baixa tecnologia no atendimento educacional especializado de estudantes com necessidades complexas de comunicação.
- Em passeios: leve uma versão pequena da prancha ou um chaveiro de cartões com "banheiro", "água", "pausa" e "quero ir embora".
- Na saúde: pela mesma lei, os serviços públicos de saúde devem implantar sistemas de CAA de baixa tecnologia e capacitar suas equipes.
A nova lei sobre CAA em espaços públicos
A Lei 15.249, de 3 de novembro de 2025, alterou a Lei da Acessibilidade e o Estatuto da Pessoa com Deficiência. Ela define pessoa com necessidades complexas de comunicação e prevê a instalação de pranchas com pictogramas em espaços públicos e abertos ao público, como praças e parques. A implantação depende da disponibilidade de orçamento de cada governo.
Onde encontrar pictogramas e o que evitar
O ARASAAC, centro mantido pelo Governo de Aragão, na Espanha, oferece pictogramas gratuitos sob licença Creative Commons BY-NC-SA: o uso não comercial é permitido citando autor e fonte, e o uso comercial fica de fora. Confira as condições no site antes de usar em materiais vendidos ou públicos.
Atenção à comunicação facilitada, técnica em que outra pessoa segura a mão ou o braço da pessoa autista para ela digitar. Uma revisão sistemática feita para a ISAAC, sociedade internacional de CAA, concluiu que, nos testes controlados, as mensagens eram produzidas pelo facilitador. Isso é diferente de a pessoa usar o próprio sistema de forma independente, com apoio para posicionar o aparelho, por exemplo.
Fontes
- Millar DC, Light JC, Schlosser RW — The impact of AAC intervention on the speech production of individuals with developmental disabilities, JSLHR (2006)
- Schlosser RW, Wendt O — Effects of AAC intervention on speech production in children with autism, AJSLP (2008)
- White EN et al. — Augmentative and alternative communication and speech production for individuals with ASD: a systematic review, JADD (2021)
- Pyramid Educational Consultants — Picture Exchange Communication System (PECS)
- Presidência da República — Lei nº 15.249, de 3 de novembro de 2025
- Schlosser RW et al. — Facilitated communication and authorship: a systematic review, AAC (2014)
- ARASAAC — Terms of use
- Ministério da Saúde — Linha de Cuidado para Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (2025)
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