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Cuidar de quem cuida: sobrecarga, luto e rede de apoio para famílias de crianças autistas

Sentir-se exausta cuidando de uma criança autista não é fraqueza nem falta de amor.

Artigo Atualizado em 🕒 6 min de leitura

Visão geral

Sentir-se exausta cuidando de uma criança autista não é fraqueza nem falta de amor. A pesquisa mostra que pais e, principalmente, mães de crianças autistas relatam mais estresse do que outras famílias, por causa das demandas diárias, da busca por serviços e da falta de apoio. Reconhecer os sinais de sobrecarga e montar uma rede, formal e informal, faz diferença para quem cuida e para a criança.

O que a pesquisa diz sobre a sobrecarga

Uma meta-análise publicada em 2013 reuniu estudos que compararam o estresse de pais de crianças autistas com o de pais de crianças com desenvolvimento típico. A diferença encontrada foi grande. Os pais de crianças autistas também relataram mais estresse do que pais de crianças com outras deficiências, embora os autores peçam cautela nessa comparação.

No Brasil, uma revisão sistemática de 2015 concluiu que a sobrecarga emocional é um dos principais desafios das famílias, sobretudo das mães. Os fatores de estresse mais citados foram:

  • a demora para conseguir o diagnóstico;
  • a dificuldade de lidar com a notícia e com os sintomas associados;
  • o acesso difícil aos serviços de saúde e ao apoio social.

Um estudo de 2022 com 51 mães de crianças autistas no Piauí, que usou uma escala de sobrecarga do cuidador, encontrou 64,7% delas se sentindo sobrecarregadas, a maioria em grau leve a moderado. É uma amostra pequena e regional, que não representa todo o país, mas reforça o pedido dos autores: identificar a sobrecarga materna já na atenção primária.

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Sinais de sobrecarga

A sobrecarga costuma chegar aos poucos, e muitas vezes a própria pessoa demora a perceber. Fique atenta se você nota:

  • cansaço que não melhora nem depois de dormir;
  • irritação frequente, choro fácil ou sensação de estar "no limite";
  • dificuldade para dormir, mesmo quando a criança dorme;
  • perda de interesse por coisas de que gostava;
  • isolamento: deixar de ver amigos e família;
  • dores no corpo, dor de cabeça ou problemas de estômago sem causa clara;
  • culpa constante por "não fazer o suficiente";
  • sensação de que ninguém entende o que você vive.

Se esses sinais duram semanas e atrapalham a vida, podem indicar ansiedade ou depressão, que têm tratamento. E se aparecerem pensamentos de desistir de tudo ou de se machucar, procure ajuda imediatamente: CVV no 188 (gratuito, 24 horas) ou SAMU no 192.

O luto que pode vir com o diagnóstico

Muitas famílias descrevem um sentimento parecido com luto depois do diagnóstico: a despedida de planos e expectativas que tinham imaginado. Esse sentimento não significa rejeitar a criança. Ele pode ir e voltar em momentos como aniversários, mudanças de escola ou comparações com outras crianças.

Falar sobre isso, com o parceiro, com outras famílias ou com um psicólogo, ajuda a abrir espaço para conhecer a criança real, com seu jeito, seus interesses e suas conquistas, no tempo dela.

Por que o peso recai mais sobre as mulheres

Os estudos brasileiros apontam, repetidamente, que as mães são as cuidadoras principais. Isso tem raízes sociais: a divisão desigual das tarefas de cuidado, a expectativa de que a mãe "dê conta" e, em muitos casos, a saída do trabalho para acompanhar terapias e consultas. Quando a mãe cria o filho sozinha, a carga é ainda maior, e a rede de apoio fica mais frágil.

Evitar rótulos como "mãe guerreira" também ajuda. Eles parecem elogio, mas podem reforçar a ideia de que a mãe deve aguentar tudo sem reclamar e sem pedir ajuda. O que as famílias precisam é de divisão de tarefas e de serviços que funcionem.

Dividir o cuidado em casa

Quando há mais de um adulto na família, combinar quem faz o quê reduz conflitos e cansaço. Algumas ideias:

  • fazer uma lista das tarefas da semana (terapias, escola, remédios, compras, noites mal dormidas) e dividir de forma explícita;
  • revezar as noites quando a criança acorda muito;
  • ensinar outros familiares a lidar com a rotina da criança, para que a mãe não seja a única pessoa "que sabe";
  • pedir ajudas concretas a parentes e amigos: buscar na escola, levar uma refeição pronta, ficar com a criança por duas horas.

Autocuidado possível

Conselhos como "tire um fim de semana de folga" nem sempre cabem na realidade. O autocuidado possível é feito de pequenas coisas, repetidas:

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  • 15 minutos por dia só para você, mesmo que seja um banho sem pressa ou uma caminhada curta;
  • manter as próprias consultas médicas em dia;
  • dormir sempre que houver oportunidade, sem culpa;
  • reduzir exigências que não são essenciais: a casa não precisa estar perfeita;
  • manter pelo menos uma conversa por semana com alguém de confiança sobre algo que não seja o autismo;
  • escolher com cuidado o que consome nas redes sociais: comparações e promessas milagrosas aumentam a angústia.

Organizar a rotina da criança também alivia a família. Uma rotina visual pode diminuir conflitos em momentos difíceis, como a hora do banho ou de sair para a escola.

Grupos de apoio e psicoterapia

A revisão brasileira de 2015 identificou a troca de informação com outras famílias como uma das estratégias que mais ajudam. Grupos de apoio, presenciais ou online, oferecem acolhimento, dicas práticas e a sensação de não estar sozinha. Prefira grupos que tratem a pessoa autista com respeito, sem promessas de cura e sem venda de tratamentos.

A psicoterapia também pode ajudar a lidar com o luto, a culpa, o cansaço e as decisões do dia a dia. Pelo SUS, a UBS pode acolher e encaminhar. Vale também perguntar, nas faculdades de psicologia da sua cidade, se a clínica-escola atende a comunidade e em que condições.

Onde pedir ajuda

ServiçoO que ofereceQuando procurar
UBS (Unidade Básica de Saúde)Consulta para o cuidador, acolhimento em saúde mental, encaminhamentosCansaço, insônia, tristeza ou ansiedade persistentes
CAPS (Centro de Atenção Psicossocial)Cuidado em saúde mental para casos mais graves ou persistentesSofrimento intenso, crises, depressão que não melhora
CRAS (Centro de Referência de Assistência Social)Porta de entrada da assistência social: acompanhamento da família (PAIF) e orientação sobre a rede socioassistencial e os benefíciosDificuldade financeira, isolamento, dúvidas sobre benefícios
CVV (188)Apoio emocional por telefone, chat ou e-mail, gratuito e 24 horasA qualquer momento em que precisar conversar
SAMU (192)Atendimento de urgênciaRisco imediato à vida

Para conhecer os direitos que podem aliviar parte da carga, como prioridade de atendimento e apoio na escola, use o guia de direitos.

Passo a passo para começar hoje

  1. Dê nome ao que sente. Anote, por uma semana, como está seu sono, seu humor e seu cansaço.
  2. Escolha uma tarefa para delegar nesta semana e peça ajuda de forma direta.
  3. Marque uma consulta para você na UBS, não só para a criança.
  4. Procure um grupo de famílias no seu bairro, na escola ou nos serviços de saúde.
  5. Vá ao CRAS se a situação financeira ou o isolamento estiverem pesando.

Pedir ajuda é uma forma de cuidar da criança também. Uma família apoiada consegue oferecer mais calma, mais presença e mais paciência.

Fontes