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Medicamentos no autismo: o que tratam e o que não tratam

Não existe remédio que trate o autismo em si, ou seja, as diferenças na comunicação social e os comportamentos repetitivos.

Artigo Atualizado em 🕒 7 min de leitura

Visão geral

Não existe remédio que trate o autismo em si, ou seja, as diferenças na comunicação social e os comportamentos repetitivos. O protocolo do Ministério da Saúde para comportamento agressivo no autismo, de 2022, deixa isso claro. A medicação pode ajudar em situações associadas, como irritabilidade e agressividade intensas, problemas de sono, TDAH ou ansiedade, sempre como complemento das terapias e com acompanhamento médico. Antes de qualquer remédio, é preciso investigar causas como dor, falta de comunicação, sono ruim e ambiente.

O que a medicação não faz

Nenhum medicamento muda o fato de a pessoa ser autista. Também não há remédio que "faça falar", que ensine habilidades sociais ou que substitua o trabalho de fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e escola. O termo de esclarecimento do protocolo do SUS informa à família que a risperidona não tem efeito sobre os sintomas principais do autismo nem leva à cura.

A Linha de Cuidado para Pessoas com TEA, de 2025, reforça que o tratamento com remédios não deve ser o único nem o principal recurso. A decisão de começar, e também a de retirar, deve ser discutida com a equipe e com a família.

Primeiro, investigar o que está por trás

Agressividade, autoagressão, choro intenso e agitação costumam ter um motivo. O protocolo do SUS recomenda identificar gatilhos e fatores de risco antes de pensar em remédio. Entre eles:

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  • Dor ou doença física: dor de dente, de ouvido, intestino preso, refluxo, convulsões, cólica menstrual. A pessoa pode não conseguir dizer onde dói.
  • Comunicação: não conseguir pedir, recusar ou explicar o que sente gera frustração.
  • Ambiente sensorial: barulho, luz forte, multidão, roupas que incomodam.
  • Mudanças e relações: troca de escola, perda, conflitos na família, falta de previsibilidade.
  • Sono: noites mal dormidas aumentam irritabilidade.
  • Outras condições: ansiedade, depressão, TDAH.

Muitas vezes, tratar a dor, ajustar a rotina ou oferecer um jeito de comunicar já reduz as crises. Registrar quando elas acontecem ajuda a descobrir padrões. O nosso diário de comportamento e sono foi feito para isso e gera um resumo para levar à consulta.

Para que a medicação pode ser usada

SituaçãoO que pode ser consideradoObservações
Irritabilidade e agressividade intensas (a si ou a outros)Antipsicóticos, principalmente risperidona e aripiprazolSão os mais estudados; exigem acompanhamento de efeitos colaterais
TDAH associadoMedicamentos usados para TDAHAvaliação e prescrição por médico; a resposta varia de pessoa para pessoa
Dificuldade para dormirPrimeiro, medidas de rotina e ambiente; em alguns casos, melatonina ou outros remédios com orientação médicaNo Brasil, a melatonina não é aprovada como medicamento
Ansiedade, depressão, epilepsia e outras condiçõesTratamento da condição específicaSegue as orientações para cada condição, adaptadas à pessoa autista

Risperidona e aripiprazol: o que dizem as revisões

Uma meta-análise publicada em 2023 no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, com 45 estudos e 2.856 pessoas autistas, concluiu que os antipsicóticos, em especial risperidona e aripiprazol, têm eficácia comprovada no curto prazo para irritabilidade e desregulação emocional. Os autores recomendam que sejam usados dentro de um plano com outras abordagens, considerando efeitos colaterais e as preferências da família. Medicamentos para TDAH também foram melhores que placebo nesse desfecho.

A revisão Cochrane de 2016 sobre aripiprazol, com crianças e adolescentes, encontrou menos irritabilidade, hiperatividade e estereotipias no curto prazo. Mas registrou efeitos como ganho de peso, sonolência, salivação excessiva e tremor. Em um estudo de retirada, as recaídas não foram muito diferentes entre quem continuou o remédio e quem passou para placebo, o que sugere reavaliar a necessidade depois que os sintomas se estabilizam.

No Brasil, segundo o protocolo do SUS de 2022, a risperidona tem indicação em bula aprovada pela Anvisa para irritabilidade associada ao autismo, enquanto o aripiprazol não tinha essa indicação aprovada em bula. Na revisão feita para o protocolo, não houve diferença clara de eficácia entre os dois.

Riscos e acompanhamento

Os efeitos indesejados mais conhecidos dos antipsicóticos incluem ganho de peso, alterações de colesterol, triglicérides e glicose, aumento da prolactina (hormônio que pode causar alterações menstruais e saída de leite pelas mamas), sonolência e movimentos involuntários. O uso prolongado aumenta o risco de síndrome metabólica e de discinesia tardia.

Por isso, o protocolo do SUS recomenda:

  • avaliar peso, altura, cintura, pressão arterial, colesterol, triglicérides e glicemia antes de começar;
  • repetir medidas e exames em intervalos definidos no primeiro ano e depois anualmente;
  • definir qual comportamento é o alvo e como medir a melhora;
  • começar com dose baixa e usar a menor dose eficaz, sempre definida pelo médico;
  • rever o efeito em poucas semanas e interromper se não houver resposta clara após cerca de seis semanas;
  • idealmente, manter o tratamento por pouco tempo e reavaliar com frequência a necessidade de continuar.

Não mude a dose, não suspenda de repente e não dê o remédio de outra pessoa. Qualquer mudança deve ser combinada com o médico.

Risperidona pelo SUS

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Comportamento Agressivo no Transtorno do Espectro do Autismo, aprovado pela Portaria Conjunta nº 7 de 2022, prevê a risperidona pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica. Os critérios incluem:

  • diagnóstico de autismo;
  • idade acima de 5 anos (menores de 5 anos ficam fora do protocolo);
  • comportamento agressivo grave dirigido a si ou a outras pessoas;
  • pouca resposta ou pouca adesão às intervenções não medicamentosas.

Adultos também podem ser incluídos. O pedido é feito com o laudo para medicamentos especializados (LME) e a receita do médico, na farmácia de medicamentos especializados do seu estado. As apresentações disponíveis podem variar entre estados.

Suplementos, probióticos e canabidiol

O protocolo do SUS afirma que não há evidência que sustente anticonvulsivantes (quando não há epilepsia), homeopatia, terapia de quelação, suplementos dietéticos e vitaminas para tratar comportamento agressivo no autismo.

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Melatonina: um ensaio clínico de 2017 com 125 crianças e adolescentes, quase todos autistas, mostrou que uma formulação pediátrica de liberação prolongada aumentou o tempo de sono em comparação com placebo. No Brasil, porém, o Ministério da Saúde informa que a melatonina não é aprovada como medicamento: só é permitida como suplemento para pessoas com 19 anos ou mais, em dose baixa e sem alegação de tratar insônia. A página do ministério inclui as crianças entre os grupos que não devem usar o suplemento; qualquer uso em criança precisa de avaliação médica.

Probióticos: meta-análises recentes encontraram, no máximo, efeitos pequenos e com baixa certeza da evidência, a partir de poucos estudos e com poucos participantes. Não há base para indicá-los como tratamento do autismo.

Canabidiol: na revisão feita para o protocolo do SUS, havia apenas um ensaio clínico, com resultados preliminares, e estudos observacionais com limitações. Por isso, o protocolo não recomendou o canabidiol para comportamento agressivo no autismo. Qualquer uso deve ser discutido com o médico, que conhece as regras da Anvisa e os riscos de interação com outros remédios.

Desconfie de produtos vendidos como "tratamento natural do autismo". "Natural" não significa seguro.

Perguntas para levar à consulta

  1. Qual comportamento ou sintoma este remédio deve melhorar? Como vamos saber se funcionou?
  2. Já investigamos dor, sono, audição e outras causas físicas?
  3. Quais efeitos colaterais devo observar e quando devo procurar ajuda?
  4. Que exames são necessários antes e durante o tratamento?
  5. Por quanto tempo vamos usar e quando vamos reavaliar a retirada?
  6. Como este remédio se combina com as terapias e com outros medicamentos que já usamos?
  7. Existe a opção pelo SUS? Que documentos preciso?

Em caso de crise com risco para a pessoa ou para outros, ligue para o SAMU no 192. Se a pessoa autista ou alguém da família estiver em sofrimento emocional intenso ou pensando em se machucar, o CVV atende de graça pelo 188, a qualquer hora.

Fontes