Não existe remédio que trate o autismo em si, ou seja, as diferenças na comunicação social e os comportamentos repetitivos. O protocolo do Ministério da Saúde para comportamento agressivo no autismo, de 2022, deixa isso claro. A medicação pode ajudar em situações associadas, como irritabilidade e agressividade intensas, problemas de sono, TDAH ou ansiedade, sempre como complemento das terapias e com acompanhamento médico. Antes de qualquer remédio, é preciso investigar causas como dor, falta de comunicação, sono ruim e ambiente.
O que a medicação não faz
Nenhum medicamento muda o fato de a pessoa ser autista. Também não há remédio que "faça falar", que ensine habilidades sociais ou que substitua o trabalho de fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e escola. O termo de esclarecimento do protocolo do SUS informa à família que a risperidona não tem efeito sobre os sintomas principais do autismo nem leva à cura.
A Linha de Cuidado para Pessoas com TEA, de 2025, reforça que o tratamento com remédios não deve ser o único nem o principal recurso. A decisão de começar, e também a de retirar, deve ser discutida com a equipe e com a família.
Primeiro, investigar o que está por trás
Agressividade, autoagressão, choro intenso e agitação costumam ter um motivo. O protocolo do SUS recomenda identificar gatilhos e fatores de risco antes de pensar em remédio. Entre eles:
- Dor ou doença física: dor de dente, de ouvido, intestino preso, refluxo, convulsões, cólica menstrual. A pessoa pode não conseguir dizer onde dói.
- Comunicação: não conseguir pedir, recusar ou explicar o que sente gera frustração.
- Ambiente sensorial: barulho, luz forte, multidão, roupas que incomodam.
- Mudanças e relações: troca de escola, perda, conflitos na família, falta de previsibilidade.
- Sono: noites mal dormidas aumentam irritabilidade.
- Outras condições: ansiedade, depressão, TDAH.
Muitas vezes, tratar a dor, ajustar a rotina ou oferecer um jeito de comunicar já reduz as crises. Registrar quando elas acontecem ajuda a descobrir padrões. O nosso diário de comportamento e sono foi feito para isso e gera um resumo para levar à consulta.
Para que a medicação pode ser usada
| Situação | O que pode ser considerado | Observações |
|---|---|---|
| Irritabilidade e agressividade intensas (a si ou a outros) | Antipsicóticos, principalmente risperidona e aripiprazol | São os mais estudados; exigem acompanhamento de efeitos colaterais |
| TDAH associado | Medicamentos usados para TDAH | Avaliação e prescrição por médico; a resposta varia de pessoa para pessoa |
| Dificuldade para dormir | Primeiro, medidas de rotina e ambiente; em alguns casos, melatonina ou outros remédios com orientação médica | No Brasil, a melatonina não é aprovada como medicamento |
| Ansiedade, depressão, epilepsia e outras condições | Tratamento da condição específica | Segue as orientações para cada condição, adaptadas à pessoa autista |
Risperidona e aripiprazol: o que dizem as revisões
Uma meta-análise publicada em 2023 no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, com 45 estudos e 2.856 pessoas autistas, concluiu que os antipsicóticos, em especial risperidona e aripiprazol, têm eficácia comprovada no curto prazo para irritabilidade e desregulação emocional. Os autores recomendam que sejam usados dentro de um plano com outras abordagens, considerando efeitos colaterais e as preferências da família. Medicamentos para TDAH também foram melhores que placebo nesse desfecho.
A revisão Cochrane de 2016 sobre aripiprazol, com crianças e adolescentes, encontrou menos irritabilidade, hiperatividade e estereotipias no curto prazo. Mas registrou efeitos como ganho de peso, sonolência, salivação excessiva e tremor. Em um estudo de retirada, as recaídas não foram muito diferentes entre quem continuou o remédio e quem passou para placebo, o que sugere reavaliar a necessidade depois que os sintomas se estabilizam.
No Brasil, segundo o protocolo do SUS de 2022, a risperidona tem indicação em bula aprovada pela Anvisa para irritabilidade associada ao autismo, enquanto o aripiprazol não tinha essa indicação aprovada em bula. Na revisão feita para o protocolo, não houve diferença clara de eficácia entre os dois.
Riscos e acompanhamento
Os efeitos indesejados mais conhecidos dos antipsicóticos incluem ganho de peso, alterações de colesterol, triglicérides e glicose, aumento da prolactina (hormônio que pode causar alterações menstruais e saída de leite pelas mamas), sonolência e movimentos involuntários. O uso prolongado aumenta o risco de síndrome metabólica e de discinesia tardia.
Por isso, o protocolo do SUS recomenda:
- avaliar peso, altura, cintura, pressão arterial, colesterol, triglicérides e glicemia antes de começar;
- repetir medidas e exames em intervalos definidos no primeiro ano e depois anualmente;
- definir qual comportamento é o alvo e como medir a melhora;
- começar com dose baixa e usar a menor dose eficaz, sempre definida pelo médico;
- rever o efeito em poucas semanas e interromper se não houver resposta clara após cerca de seis semanas;
- idealmente, manter o tratamento por pouco tempo e reavaliar com frequência a necessidade de continuar.
Não mude a dose, não suspenda de repente e não dê o remédio de outra pessoa. Qualquer mudança deve ser combinada com o médico.
Risperidona pelo SUS
O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Comportamento Agressivo no Transtorno do Espectro do Autismo, aprovado pela Portaria Conjunta nº 7 de 2022, prevê a risperidona pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica. Os critérios incluem:
- diagnóstico de autismo;
- idade acima de 5 anos (menores de 5 anos ficam fora do protocolo);
- comportamento agressivo grave dirigido a si ou a outras pessoas;
- pouca resposta ou pouca adesão às intervenções não medicamentosas.
Adultos também podem ser incluídos. O pedido é feito com o laudo para medicamentos especializados (LME) e a receita do médico, na farmácia de medicamentos especializados do seu estado. As apresentações disponíveis podem variar entre estados.
Suplementos, probióticos e canabidiol
O protocolo do SUS afirma que não há evidência que sustente anticonvulsivantes (quando não há epilepsia), homeopatia, terapia de quelação, suplementos dietéticos e vitaminas para tratar comportamento agressivo no autismo.
Melatonina: um ensaio clínico de 2017 com 125 crianças e adolescentes, quase todos autistas, mostrou que uma formulação pediátrica de liberação prolongada aumentou o tempo de sono em comparação com placebo. No Brasil, porém, o Ministério da Saúde informa que a melatonina não é aprovada como medicamento: só é permitida como suplemento para pessoas com 19 anos ou mais, em dose baixa e sem alegação de tratar insônia. A página do ministério inclui as crianças entre os grupos que não devem usar o suplemento; qualquer uso em criança precisa de avaliação médica.
Probióticos: meta-análises recentes encontraram, no máximo, efeitos pequenos e com baixa certeza da evidência, a partir de poucos estudos e com poucos participantes. Não há base para indicá-los como tratamento do autismo.
Canabidiol: na revisão feita para o protocolo do SUS, havia apenas um ensaio clínico, com resultados preliminares, e estudos observacionais com limitações. Por isso, o protocolo não recomendou o canabidiol para comportamento agressivo no autismo. Qualquer uso deve ser discutido com o médico, que conhece as regras da Anvisa e os riscos de interação com outros remédios.
Desconfie de produtos vendidos como "tratamento natural do autismo". "Natural" não significa seguro.
Perguntas para levar à consulta
- Qual comportamento ou sintoma este remédio deve melhorar? Como vamos saber se funcionou?
- Já investigamos dor, sono, audição e outras causas físicas?
- Quais efeitos colaterais devo observar e quando devo procurar ajuda?
- Que exames são necessários antes e durante o tratamento?
- Por quanto tempo vamos usar e quando vamos reavaliar a retirada?
- Como este remédio se combina com as terapias e com outros medicamentos que já usamos?
- Existe a opção pelo SUS? Que documentos preciso?
Em caso de crise com risco para a pessoa ou para outros, ligue para o SAMU no 192. Se a pessoa autista ou alguém da família estiver em sofrimento emocional intenso ou pensando em se machucar, o CVV atende de graça pelo 188, a qualquer hora.
Fontes
- Ministério da Saúde/Conitec — PCDT Comportamento Agressivo no Transtorno do Espectro do Autismo, Portaria Conjunta nº 7 (2022)
- Ministério da Saúde — Linha de Cuidado para Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (2025)
- Salazar de Pablo G et al. — Efficacy of pharmacological interventions for irritability and emotional dysregulation in autism spectrum disorder, JAACAP (2023)
- Hirsch LE, Pringsheim T — Aripiprazole for autism spectrum disorders, Cochrane (2016)
- Gringras P et al. — Efficacy and safety of pediatric prolonged-release melatonin for insomnia in children with autism, JAACAP (2017)
- Ministério da Saúde — Melatonina
- Huang PW et al. — A meta-analysis of randomized placebo-controlled trials on the effects of probiotics for autism spectrum disorders (2025)
Este artigo foi útil?
Obrigado pela resposta! Encontrou algum erro? Conte para nós.