Os primeiros sinais de autismo costumam aparecer entre o primeiro e o segundo ano de vida e envolvem principalmente a comunicação e a interação: o bebê responde pouco ao próprio nome, faz poucos gestos, quase não aponta para mostrar coisas e pouco divide a atenção com o adulto. Nenhum sinal sozinho confirma o diagnóstico, mas qualquer preocupação merece conversa com o pediatra, e a perda de habilidades que a criança já tinha deve ser avaliada logo, em qualquer idade.
O desenvolvimento tem variação, e isso é normal
Cada criança tem seu ritmo. Os marcos do desenvolvimento, como sorrir, balbuciar, andar e falar as primeiras palavras, indicam o que a maioria das crianças faz em certa idade, não uma data exata. As listas de marcos dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), por exemplo, trazem o que 75% ou mais das crianças conseguem fazer em cada idade. Assim, quando um marco não aparece, já é motivo para conversar com um profissional, sem esperar.
No Brasil, a vigilância do desenvolvimento é feita nas consultas de puericultura, com a Caderneta da Criança. Segundo a Linha de Cuidado para Pessoas com TEA do Ministério da Saúde (2025), os marcos devem ser registrados e acompanhados em todas as consultas na Atenção Primária.
Sinais de alerta por idade
A tabela reúne sinais descritos pelo CDC e pela Linha de Cuidado do Ministério da Saúde. Use como guia de observação, não como teste.
| Idade aproximada | O que pode chamar a atenção |
|---|---|
| 0 a 6 meses | Pouco interesse pelo rosto humano; olhar pouco sustentado; demora no sorriso social; não busca o cuidador com o olhar. |
| Por volta dos 9 meses | Não responde quando é chamado pelo nome; mostra poucas expressões faciais, como alegria, tristeza ou surpresa. |
| Por volta dos 12 meses | Não participa de brincadeiras de interação simples, como bater palminhas; usa poucos ou nenhum gesto, como dar tchau. |
| Por volta dos 15 meses | Não mostra objetos de que gosta para dividir o interesse com o adulto. |
| Por volta dos 18 meses | Não aponta para mostrar algo interessante; não segue o olhar ou o dedo do adulto; ainda sem palavras ou com muito poucas. |
| Por volta dos 24 meses | Não percebe quando outra pessoa está machucada ou triste; repete falas fora de contexto em vez de usar palavras para pedir; pouca brincadeira de faz de conta. |
| Por volta dos 3 anos | Não se interessa por outras crianças ou só observa de longe; dificuldade em brincar junto. |
Ao longo dessas fases também podem aparecer comportamentos repetitivos e diferenças sensoriais: enfileirar objetos e ficar muito incomodado quando a ordem muda, brincar sempre do mesmo jeito, prestar atenção a partes dos objetos (como as rodinhas do carrinho), balançar o corpo, abanar as mãos, girar, reagir de forma intensa a sons, cheiros, sabores ou texturas e ficar muito perturbado com pequenas mudanças na rotina.
Perda de habilidades: o sinal que não pode esperar
Algumas crianças desenvolvem palavras, gestos ou brincadeiras e depois deixam de usá-los. Essa perda, chamada de regressão, é um sinal importante para qualquer condição do desenvolvimento, não só para o autismo. O CDC orienta agir cedo sempre que a criança perder habilidades que já tinha.
Se você perceber que seu filho parou de falar palavras que usava, deixou de responder ao nome ou de brincar como antes, não espere a próxima consulta de rotina: procure a Unidade Básica de Saúde ou o pediatra e conte exatamente o que mudou e quando.
Sinais de comunicação, sociais, sensoriais e repetitivos
Para entender melhor, os sinais costumam ser agrupados em quatro áreas:
- Comunicação: atraso na fala, pouco uso de gestos, repetição de palavras ou frases (ecolalia), dificuldade em usar a linguagem para pedir ou comentar.
- Interação social: pouco contato visual, pouca resposta ao nome, pouca atenção compartilhada (olhar para o adulto e para o objeto ao mesmo tempo), pouco interesse em brincadeiras com outras pessoas.
- Sensorial: incômodo forte com barulho, roupas ou alimentos de certas texturas, ou, ao contrário, busca intensa por sensações, como girar ou cheirar objetos.
- Comportamentos repetitivos: movimentos repetidos, rotinas rígidas, interesse muito intenso por um tema ou objeto.
Uma criança pode ter alguns desses comportamentos e não ser autista. Outra pode ser autista e ter poucos deles. Por isso a avaliação olha o conjunto, a frequência e o impacto no dia a dia.
A triagem nas consultas
Além da observação, existe a triagem com questionário. No Brasil, a Caderneta da Criança e o prontuário eletrônico do SUS (e-SUS APS) incluem o M-CHAT-R/F, um questionário respondido pelos pais e validado para crianças de 16 a 30 meses. A Linha de Cuidado recomenda a triagem formal de todas as crianças na consulta de 18 meses, mesmo sem suspeita, e antecipar para 16 meses quando houver preocupação. A Academia Americana de Pediatria recomenda a triagem específica para autismo aos 18 e aos 24 meses.
Desde 2017, o Estatuto da Criança e do Adolescente obriga a aplicação, nos primeiros 18 meses de vida, de um protocolo para detectar riscos ao desenvolvimento psíquico nas consultas pediátricas. Pergunte ao profissional se a triagem foi feita e qual foi o resultado. Lembre: triagem não é diagnóstico.
Quando falar com o pediatra e o que levar
Fale com o pediatra, o médico de família ou a equipe da UBS sempre que tiver uma dúvida, mesmo que pareça pequena. Você conhece seu filho melhor do que ninguém. Para aproveitar bem a consulta:
- Leve a Caderneta da Criança com os marcos já anotados.
- Escreva exemplos concretos: "não olha quando chamo pelo nome, mesmo de perto", "parou de dar tchau há dois meses".
- Se possível, grave vídeos curtos de situações do dia a dia, como brincadeiras, refeições e momentos de irritação.
- Anote sono, alimentação e crises. O diário de comportamento e sono ajuda nessa organização.
- Leve relatos da creche ou da escola, se a criança frequentar.
- Pergunte sobre audição: dificuldades de resposta ao nome e de fala também podem ter causa auditiva, e o profissional pode indicar uma avaliação da audição.
Não espere o laudo para estimular
Esse é um dos pontos mais importantes das orientações atuais. A Linha de Cuidado do Ministério da Saúde diz que, quando algum marco não aparece, a estimulação deve começar imediatamente na Atenção Primária, independentemente da confirmação do diagnóstico. A Academia Americana de Pediatria recomenda o mesmo: encaminhar para intervenção assim que um atraso for identificado, sem aguardar a avaliação de autismo.
Em casa, pequenas atitudes ajudam:
- brinque no chão, na altura da criança, e siga o interesse dela;
- nomeie objetos e ações com frases curtas;
- espere a criança responder, com olhar, gesto, som ou palavra;
- use rotinas previsíveis, com apoio de imagens. A rotina visual pode ser útil a partir de cerca de 2 anos.
Sem comparações e sem culpados
Comparar com irmãos, primos ou filhos de amigos costuma gerar ansiedade e não ajuda a entender a criança. Também não existe culpa: o autismo não é causado pela forma como os pais criam a criança nem pela falta de carinho. As causas envolvem principalmente fatores do desenvolvimento do cérebro, com forte participação genética, e ainda são estudadas.
Buscar avaliação cedo não é rotular a criança. É garantir que ela receba apoio no momento em que esse apoio faz mais diferença. Se o resultado for outro diagnóstico, ou nenhum, o acompanhamento terá valido do mesmo jeito.
Fontes
- Ministério da Saúde — Linha de Cuidado para Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (2025)
- Ministério da Saúde — Linhas de Cuidado: TEA, vigilância em saúde na Atenção Primária
- CDC — Signs and symptoms of autism spectrum disorder
- CDC — Learn the Signs. Act Early: milestones by 18 months
- Hyman SL, Levy SE, Myers SM; AAP — Identification, evaluation, and management of children with autism spectrum disorder, Pediatrics (2020)
- Presidência da República — Lei nº 13.438, de 26 de abril de 2017
- Sociedade Brasileira de Pediatria — Diagnóstico precoce para o transtorno do espectro do autismo (2019)
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