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Autismo em meninas e mulheres: por que o diagnóstico demora

Artigo Atualizado em 🕒 7 min de leitura

Visão geral

O diagnóstico de autismo em meninas e mulheres costuma demorar porque os critérios e instrumentos foram construídos principalmente a partir de meninos, porque muitas aprendem a esconder suas dificuldades sociais (a chamada camuflagem) e porque seus sinais são confundidos com timidez, ansiedade ou depressão. Estudos mostram que, entre meninos e meninas que atendem aos critérios, as meninas têm mais risco de não receber o diagnóstico, e muitas só o recebem na adolescência ou na vida adulta.

Quantos meninos e quantas meninas

O autismo é diagnosticado com mais frequência em meninos. No relatório mais recente do CDC dos Estados Unidos, com dados de 2022 de crianças de 8 anos em 16 locais do país, a prevalência foi de 49,2 por mil entre os meninos e de 14,3 por mil entre as meninas, uma proporção de 3,4 meninos para cada menina. Esse dado vale para aquele grupo, naquele país, e não deve ser tratado como um número mundial.

Durante muito tempo se repetiu que a proporção era de quatro meninos para uma menina. Uma meta-análise publicada em 2017 no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, que reuniu 54 estudos, mostrou algo importante: quando os pesquisadores procuraram o autismo na população em geral, e não só entre quem já tinha diagnóstico, a proporção ficou mais perto de três para um. Para os autores, isso sugere um viés de gênero no diagnóstico: meninas que atendem aos critérios têm risco desproporcional de não serem diagnosticadas.

Critérios construídos sobre amostras masculinas

Boa parte do conhecimento clássico sobre autismo veio de estudos com mais meninos do que meninas. Os exemplos de comportamento usados em manuais, questionários e treinamentos refletem, muitas vezes, a forma como o autismo aparece em meninos. Quando uma menina não se encaixa nesse retrato, os sinais podem passar despercebidos.

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Um estudo holandês publicado em 2013, com mais de 2.200 pessoas autistas, encontrou que, entre crianças e adolescentes, as meninas que tinham o diagnóstico então chamado de síndrome de Asperger eram identificadas mais tarde que os meninos. Os autores defenderam estratégias para melhorar o reconhecimento do autismo em meninas e mulheres.

Sinais que podem ser diferentes, sem generalizar

Não existe um "autismo feminino" separado. Cada pessoa é única, e muitas meninas têm sinais iguais aos descritos nos manuais. Mas pesquisas e relatos de mulheres autistas apontam algumas diferenças que podem dificultar o reconhecimento:

  • Interação social: a menina pode ter uma ou duas amigas e parecer sociável, mas sentir muita dificuldade em entender as regras não ditas de grupos maiores.
  • Imitação: pode observar e copiar o jeito das colegas para se encaixar, o que exige muito esforço.
  • Interesses intensos: podem estar em temas que chamam menos atenção dos adultos, e a intensidade do interesse é o que diferencia, não o assunto.
  • Comportamento na escola: pode ser vista como quieta, tímida ou muito obediente, e as dificuldades aparecem em casa, depois de um dia de esforço.
  • Sensorialidade: incômodos com barulho, roupas ou alimentos que são tratados como "frescura".

Esses pontos são possibilidades, não regras. Eles valem para qualquer pessoa, de qualquer gênero, e não substituem a avaliação.

Camuflagem e o custo emocional

Camuflar é esconder ou compensar características autistas para se adaptar ao ambiente social: forçar o contato visual, ensaiar conversas, copiar gestos, segurar movimentos repetitivos. Um estudo qualitativo com 92 adultos autistas, publicado em 2017 no Journal of Autism and Developmental Disorders, mostrou que a principal motivação era se encaixar e criar laços. As consequências relatadas incluíram exaustão e prejuízos na forma como as pessoas viam a si mesmas.

Outro estudo de 2017, com 60 adultos autistas sem deficiência intelectual, encontrou, em média, pontuações de camuflagem mais altas nas mulheres do que nos homens, com grande variação nos dois grupos. Num estudo britânico com 14 mulheres diagnosticadas na adolescência ou na vida adulta, publicado em 2016, as participantes descreveram anos "fingindo ser normais" e contaram como profissionais deixaram de perceber o autismo por causa do gênero.

A camuflagem pode atrasar o diagnóstico porque a pessoa parece estar bem para quem vê de fora. Por dentro, o esforço pode levar a cansaço extremo, crises e problemas de saúde mental.

Diagnósticos trocados antes do correto

Muitas mulheres autistas passam por outros diagnósticos antes de chegar ao autismo. Ansiedade e depressão são comuns, e podem ser reais e coexistir com o autismo, mas, quando só elas são tratadas, a causa de fundo continua sem explicação.

Um estudo italiano publicado em 2021, com 61 adultos autistas sem deficiência intelectual atendidos num serviço de saúde mental, mostrou que três em cada quatro receberam o diagnóstico de autismo, em média, oito anos depois da primeira avaliação em saúde mental. As mulheres tiveram mais atraso e foram mais diagnosticadas de forma incorreta na primeira avaliação do que os homens. É uma amostra pequena, mas que confirma o que outros estudos apontam.

O TDAH também pode atrasar o diagnóstico. Um estudo holandês de 2019 encontrou que meninas que já tinham diagnóstico de TDAH receberam o diagnóstico de autismo, em média, 2,6 anos mais tarde do que meninas sem TDAH. Nos meninos, o atraso foi de 1,5 ano.

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Vale lembrar que nem todas as meninas autistas passam despercebidas. Num estudo do CDC com dados de 2000 a 2016, entre as crianças com autismo que precisavam de apoio mais intenso (sem fala ou com pouca fala, ou com QI abaixo de 50), a proporção de meninas foi maior do que entre as demais.

Como pedir uma avaliação e o que dizer ao profissional

O autismo pode ser identificado em qualquer idade. Se você é mãe de uma menina com dúvidas, ou se é uma mulher que se reconhece nessas descrições, estes passos ajudam:

  1. Procure a Unidade Básica de Saúde ou um médico de confiança. Segundo a Linha de Cuidado do Ministério da Saúde (2025), a UBS é a porta de entrada e pode compartilhar o caso com equipes multiprofissionais, Caps e ambulatórios.
  2. Prepare exemplos concretos da infância e de hoje: dificuldades em grupos, rotinas de que precisa, incômodos sensoriais, interesses intensos, cansaço depois de eventos sociais.
  3. Fale sobre a camuflagem. Explique o que você faz para parecer adaptada e quanto isso custa. Diga, por exemplo: "na escola ela parece bem, mas chega em casa e desaba".
  4. Conte os diagnósticos anteriores e os tratamentos que já fez, e o que eles explicaram ou não.
  5. Leve outras visões: relatos de familiares, boletins, cadernos e observações de professores.
  6. Peça um profissional com experiência em autismo em mulheres e adultos, quando possível.

Questionários de autoavaliação encontrados na internet podem ajudar a organizar as ideias, mas não fazem diagnóstico. Para registrar o dia a dia antes da consulta, use o diário de comportamento e sono.

Depois do diagnóstico

Para muitas mulheres, o diagnóstico traz alívio e uma nova forma de entender a própria história. A Linha de Cuidado do Ministério da Saúde registra que receber o diagnóstico, mesmo tarde, tende a trazer mais conforto do que descontentamento, embora também traga desafios. Apoio psicológico, contato com outras pessoas autistas e adaptações no trabalho e nos estudos podem fazer diferença. O guia de direitos mostra o que a lei garante.

Se em algum momento o sofrimento ficar muito grande, procure ajuda. O CVV atende pelo telefone 188, todos os dias, 24 horas. Em situação de risco imediato, ligue para o SAMU (192).

Fontes