Autismo e TDAH são condições do neurodesenvolvimento diferentes, mas que podem aparecer juntas na mesma pessoa. O autismo tem como base diferenças na comunicação e na interação social, com padrões de comportamento e interesses restritos e repetitivos. O TDAH tem como base a desatenção e/ou a hiperatividade e a impulsividade. Desde 2013, o manual de diagnóstico mais usado no mundo permite registrar as duas condições ao mesmo tempo, e os estudos mostram que essa combinação é comum.
O que define cada condição
Os dois diagnósticos aparecem no mesmo capítulo das classificações oficiais, o dos transtornos do neurodesenvolvimento. Isso quer dizer que surgem durante o desenvolvimento e afetam a forma como a pessoa aprende, se relaciona e se organiza no dia a dia. Mas o centro de cada um é diferente.
No autismo, segundo a CID-11 (classificação da Organização Mundial da Saúde), há dificuldades persistentes para iniciar e manter a interação e a comunicação social recíprocas, junto com padrões restritos, repetitivos e pouco flexíveis de comportamento, interesses ou atividades. Diferenças sensoriais, como incômodo com sons ou texturas, também fazem parte do quadro.
No TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade), a CID-11 descreve um padrão persistente, de pelo menos seis meses, de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade, com sinais antes dos 12 anos e impacto na escola, no trabalho ou na vida social. A desatenção é a dificuldade de manter o foco em tarefas pouco estimulantes, com distração fácil e desorganização. A impulsividade é agir no impulso, sem pensar nos riscos.
Sinais parecidos e como diferenciar
Muitos comportamentos podem ter origens diferentes. Por isso, a pergunta mais útil não é "o que a criança faz", e sim "por que ela faz". Veja alguns exemplos:
| Comportamento | Quando pode estar mais ligado ao autismo | Quando pode estar mais ligado ao TDAH |
|---|---|---|
| Não responde quando é chamada | Pouca orientação para a voz e para o rosto das pessoas, mesmo em ambiente calmo | Está distraída com outra coisa e responde quando a atenção é recuperada |
| Dificuldade em fazer amigos | Dificuldade em entender regras sociais não ditas, ironias e expressões | Entende as regras, mas interrompe, não espera a vez e age por impulso |
| Agitação e movimentos constantes | Movimentos repetitivos que ajudam a regular emoções e sensações | Inquietação motora, dificuldade de ficar parada em situações estruturadas |
| Foco intenso em um assunto | Interesse profundo e duradouro, com sofrimento quando é interrompido | Hiperfoco em atividades muito estimulantes, que varia com o tempo |
| Irritação com mudanças | Necessidade de previsibilidade e rotina; mudanças pequenas causam grande desconforto | Frustração com espera e tédio, mais do que com a mudança em si |
A tabela é só um guia. Nenhum comportamento isolado confirma ou descarta um diagnóstico, e uma mesma pessoa pode ter características das duas colunas. Quem avalia precisa olhar a história desde a primeira infância, ouvir a família e a escola e observar a pessoa em situações diferentes.
Por que os dois podem aparecer juntos
Até a quarta edição do DSM (o manual da Associação Americana de Psiquiatria), o TDAH não podia ser diagnosticado quando a pessoa já tinha um transtorno global do desenvolvimento, grupo que incluía o autismo. Na prática, o profissional precisava escolher um dos dois. O DSM-5, publicado em 2013, mudou essa regra: segundo a própria associação, um diagnóstico conjunto de TDAH e transtorno do espectro autista passou a ser permitido.
A mudança acompanhou o que a pesquisa já mostrava. Uma meta-análise publicada em 2021 na revista Research in Autism Spectrum Disorders, que reuniu 63 estudos, estimou que cerca de 38% das pessoas autistas têm TDAH no momento da avaliação e cerca de 40% ao longo da vida. No caminho inverso, uma meta-análise de 2020 na revista Psychological Medicine encontrou que cerca de 21% das crianças e adolescentes com TDAH atingiam os critérios de autismo.
Por que as porcentagens variam tanto
Se você pesquisar, vai encontrar números muito diferentes. Isso tem explicação:
- Tipo de amostra: estudos feitos em clínicas especializadas tendem a encontrar mais coocorrência do que estudos feitos com a população geral, porque quem chega à clínica costuma ter mais dificuldades.
- Instrumentos diferentes: alguns estudos usam questionários de sintomas; outros, avaliação clínica completa.
- Idade e critérios: o que foi medido (sintomas, diagnóstico atual ou diagnóstico ao longo da vida) muda o resultado.
Por isso, desconfie de números exatos repetidos sem fonte. O que se pode afirmar com segurança é que a combinação é frequente e merece atenção na avaliação.
Por que o diagnóstico demora quando há as duas condições
Quando o TDAH é identificado primeiro, os sinais de autismo podem passar despercebidos ou ser atribuídos à desatenção e à impulsividade. Um estudo com dados de uma pesquisa nacional dos Estados Unidos, publicado na revista Pediatrics em 2015, mostrou que crianças que receberam primeiro o diagnóstico de TDAH tiveram o diagnóstico de autismo, em média, cerca de três anos depois das demais.
Um estudo holandês publicado em 2019 encontrou atraso médio de 1,8 ano no diagnóstico de autismo em crianças e adolescentes que já tinham diagnóstico de TDAH. O atraso foi maior nas meninas (2,6 anos) do que nos meninos (1,5 ano). Os autores recomendam avaliações multiprofissionais que considerem as duas possibilidades.
O inverso também acontece: em uma criança autista, a agitação e a distração podem ser vistas apenas como parte do autismo, e o TDAH fica sem tratamento.
Avaliação e tratamento de cada condição
Não existe exame de sangue ou de imagem que confirme autismo ou TDAH. O diagnóstico é clínico, feito por profissionais capacitados a partir da história, da observação e de informações de quem convive com a pessoa. Em geral, participam médicos (como neuropediatra, psiquiatra da infância e adolescência ou psiquiatra de adultos), psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. Veja mais em nossa cartilha Primeiros caminhos.
Quando as duas condições estão presentes, cada uma precisa de atenção própria:
- Para o autismo: apoio à comunicação e à interação, adaptações sensoriais, previsibilidade da rotina e participação da família no plano de cuidado.
- Para o TDAH: orientação aos pais e à escola, estratégias de organização e, em adolescentes e adultos, abordagens como a terapia cognitivo-comportamental, que o protocolo do Ministério da Saúde para TDAH (2022) destaca entre as intervenções psicossociais.
- Para os dois: rotina visual, ambiente com menos distrações, tarefas divididas em etapas curtas e combinados claros entre casa e escola. A ferramenta de rotina visual pode ajudar.
Medicação: só com acompanhamento médico
Existem remédios usados no tratamento do TDAH, e algumas pessoas autistas também podem se beneficiar deles. Mas a resposta pode ser diferente: o próprio protocolo do Ministério da Saúde para TDAH observa que, em pessoas autistas, os tratamentos podem ser menos tolerados, embora possam ser úteis, e recomenda consultar um especialista. Por isso:
- nunca comece, pare ou mude a dose de um remédio por conta própria;
- conte ao médico todos os medicamentos e suplementos em uso;
- anote mudanças de sono, apetite, humor e comportamento e leve às consultas.
Não há remédio que trate as características centrais do autismo. A medicação, quando indicada, é para sintomas específicos, sempre dentro de um plano mais amplo.
Quando procurar avaliação
Procure a Unidade Básica de Saúde, o pediatra ou o médico de família se você notar:
- dificuldades de atenção, agitação ou impulsividade que atrapalham a vida em casa e na escola há vários meses;
- diferenças na comunicação, no brincar ou na interação, ou interesses e rotinas muito rígidos;
- uma criança com diagnóstico de TDAH que continua com dificuldades sociais importantes mesmo com tratamento;
- uma criança autista com distração e impulsividade que não melhoram com as adaptações.
Leve anotações com exemplos do dia a dia, relatórios da escola e a Caderneta da Criança. O diário de comportamento e sono ajuda a organizar essas informações antes da consulta.
Se houver risco imediato, como crise com perigo de machucar a si ou a outras pessoas, ligue para o SAMU (192). Para apoio emocional, o CVV atende pelo telefone 188, todos os dias, 24 horas.
Fontes
- American Psychiatric Association — Highlights of changes from DSM-IV-TR to DSM-5 (2013)
- Organização Mundial da Saúde — CID-11, códigos 6A02 e 6A05 (2024)
- Rong Y, Yang CJ, Jin Y, Wang Y — Prevalence of ADHD in individuals with autism spectrum disorder: a meta-analysis, Research in Autism Spectrum Disorders (2021)
- Hollingdale J, Woodhouse E, Young S, Fridman A, Mandy W — Autistic spectrum disorder symptoms in children and adolescents with ADHD: a meta-analytical review, Psychological Medicine (2020)
- Miodovnik A, Harstad E, Sideridis G, Huntington N — Timing of the diagnosis of ADHD and autism spectrum disorder, Pediatrics (2015)
- Kentrou V, de Veld DM, Mataw KJ, Begeer S — Delayed autism spectrum disorder recognition in children and adolescents previously diagnosed with ADHD, Autism (2019)
- Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do TDAH, Portaria Conjunta nº 14 (2022)
Este artigo foi útil?
Obrigado pela resposta! Encontrou algum erro? Conte para nós.