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Fuga e acidentes: como proteger a criança autista

Muitas crianças autistas saem andando ou correndo sem avisar, em casa, na escola ou em lugares públicos, às vezes sem noção do perigo.

Artigo Atualizado em 🕒 6 min de leitura

Visão geral

Muitas crianças autistas saem andando ou correndo sem avisar, em casa, na escola ou em lugares públicos, às vezes sem noção do perigo. Isso não acontece por descuido da família. A melhor proteção combina várias camadas: entender por que a criança sai, adaptar a casa, ter identificação com contato, ensinar segurança na água, avisar a rede próxima e ter um plano pronto. Se a criança desaparecer, ligue na hora para o 190: não existe prazo de espera.

O que a pesquisa diz sobre fugas

O estudo mais citado sobre o tema foi publicado em 2012 na revista Pediatrics, por pesquisadores do Kennedy Krieger Institute, nos Estados Unidos. Os pais de 1.218 crianças autistas responderam a um questionário online. Os resultados:

  • 49% relataram que a criança tentou fugir pelo menos uma vez depois dos 4 anos de idade;
  • 26% contaram que a criança ficou desaparecida por tempo suficiente para causar preocupação;
  • entre as crianças que sumiram, 24% correram risco de afogamento e 65% risco de acidente de trânsito;
  • os irmãos sem autismo tiveram taxas de fuga bem menores, em todas as idades.

Outro estudo, da Universidade Columbia, de 2017, analisou atestados de óbito nos Estados Unidos entre 1999 e 2014. As mortes por lesões foram proporcionalmente muito mais frequentes entre pessoas autistas, sobretudo em crianças com menos de 15 anos, e o afogamento esteve entre as três principais causas.

São dados dos Estados Unidos, com mais de dez anos. Não há estudos parecidos no Brasil. Mesmo assim, a Academia Americana de Pediatria inclui a tendência a se afastar (wandering) entre as questões de saúde que os profissionais devem acompanhar em crianças autistas. É um tema para conversar com calma com a equipe, sem pânico.

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Por que a criança sai

Entender o motivo ajuda a prevenir. Algumas razões comuns:

  • Ir em direção a algo que atrai: água, um parque, um trem, um animal, um lugar favorito.
  • Fugir de algo que incomoda: barulho, multidão, luz forte, uma tarefa difícil, uma mudança inesperada.
  • Explorar: curiosidade, sem perceber o risco.
  • Movimento: necessidade de correr ou andar para se regular.

Anotar quando e onde as saídas acontecem, o que veio antes e para onde a criança foi ajuda a identificar padrões. O diário de comportamento do site pode ser usado para esses registros.

Proteger a casa

  • Trancas fora do alcance: trincos altos em portas e portões, travas em janelas e telas de proteção.
  • Alarmes simples: sensores de abertura ou sinos nas portas avisam quando alguém sai.
  • Chaves guardadas: longe da vista e do alcance da criança.
  • Portão e muro: confira se não há frestas ou objetos que sirvam de escada.
  • Sinais visuais: uma placa de "pare" na porta pode ajudar algumas crianças a lembrar de chamar um adulto.

Nenhuma medida é infalível. Elas funcionam melhor juntas e com supervisão.

Segurança na água

A água atrai muitas crianças autistas, e o afogamento pode ser rápido e silencioso. As recomendações da Academia Americana de Pediatria para crianças pequenas servem de base:

  • Cerca nos quatro lados da piscina, com pelo menos 1,20 m de altura e portão que fecha e trava sozinho. Piscinas de plástico e infláveis também precisam de cuidado: esvazie depois do uso.
  • Supervisão ao alcance do braço para crianças pequenas na água ou no banho. Em festas, combine um adulto responsável só por olhar a água e faça revezamento.
  • Aulas de natação a partir de 1 ano, conforme a prontidão da criança, que inclui aspectos de desenvolvimento. Procure professores com experiência ou disposição para adaptar as aulas.
  • Colete salva-vidas adequado em rios, lagos, mar e passeios de barco. Boias de braço não substituem o colete.
  • Atenção a caixas d'água, poços, cisternas, baldes e tanques, que devem ficar tampados.

Saber nadar reduz o risco, mas não elimina a necessidade de supervisão.

Identificação e roupas

  • Pulseira, plaquinha ou etiqueta com nome e telefone de contato. Se a criança tolerar, pode incluir a informação de que é autista e se comunica pouco com palavras.
  • Roupas de cores fortes em passeios facilitam encontrar a criança na multidão. Tire uma foto dela no dia, antes de sair.
  • Ciptea: a Carteira de Identificação da Pessoa com TEA, criada pela Lei 13.977/2020, traz nome, foto e contato do responsável. Veja como pedir no guia de direitos.
  • Cordão de girassol: a Lei 14.624/2023 instituiu o cordão com desenhos de girassóis como símbolo nacional de deficiências ocultas. O uso é opcional e não substitui um documento.
  • Rastreadores: alguns aparelhos com GPS podem ajudar, mas dependem de bateria e sinal. Considere a sensibilidade da criança ao uso.

Avisar vizinhos e escola

Quanto mais gente souber, mais rápido a criança pode ser encontrada. Converse com vizinhos, porteiros e comerciantes próximos. Mostre uma foto, explique como a criança reage a estranhos, o que a acalma e para onde ela costuma ir.

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Com a escola, combine como a entrada e a saída são controladas, quem acompanha a criança no recreio e nos passeios e como a família será avisada. Peça que a escola tenha um plano escrito para o caso de a criança sair.

Monte um plano de emergência

Deixe por escrito e compartilhe com quem cuida da criança:

  1. uma foto recente, atualizada a cada poucos meses;
  2. descrição física, como altura, peso, sinais e roupas mais usadas;
  3. como a criança se comunica e reage (se responde ao nome, se foge de pessoas, se gosta de algum som ou música);
  4. lugares que atraem a criança, principalmente os que têm água, perto de casa e da escola;
  5. contatos da família e dos serviços de saúde;
  6. alergias, remédios e condições de saúde.

O que fazer se a criança desaparecer

  1. Procure primeiro nos lugares de risco, principalmente água próxima (piscina, rio, lago, caixa d'água) e ruas movimentadas. Depois, nos lugares favoritos e esconderijos dentro de casa.
  2. Ligue para o 190 (Polícia Militar) imediatamente. Não espere: o Estatuto da Criança e do Adolescente determina que a investigação do desaparecimento de crianças seja feita logo após a notificação, e a Lei 13.812/2019 trata a busca de pessoas desaparecidas como prioridade com caráter de urgência.
  3. Informe que a criança é autista e como ela se comunica e reage. Entregue a foto e a descrição.
  4. Avise vizinhos, escola e familiares e peça que alguém fique em casa caso ela volte.
  5. Em caso de afogamento ou ferimento, chame o SAMU (192) ou os Bombeiros (193).

Ao encontrar a criança, mantenha a voz calma, evite toques bruscos e ofereça algo familiar. Depois, quando todos estiverem tranquilos, revejam juntos o que aconteceu para ajustar o plano.

Cuidar de quem cuida

Viver em alerta constante cansa. Dividir a supervisão com outros adultos, contar com a escola e com vizinhos e conversar com a equipe de saúde sobre o comportamento ajudam a reduzir o peso. Um terapeuta ocupacional ou psicólogo pode ajudar a entender o motivo das saídas e a ensinar, aos poucos, formas de pedir para sair, de esperar e de chamar um adulto.

Fontes