Muitas crianças autistas saem andando ou correndo sem avisar, em casa, na escola ou em lugares públicos, às vezes sem noção do perigo. Isso não acontece por descuido da família. A melhor proteção combina várias camadas: entender por que a criança sai, adaptar a casa, ter identificação com contato, ensinar segurança na água, avisar a rede próxima e ter um plano pronto. Se a criança desaparecer, ligue na hora para o 190: não existe prazo de espera.
O que a pesquisa diz sobre fugas
O estudo mais citado sobre o tema foi publicado em 2012 na revista Pediatrics, por pesquisadores do Kennedy Krieger Institute, nos Estados Unidos. Os pais de 1.218 crianças autistas responderam a um questionário online. Os resultados:
- 49% relataram que a criança tentou fugir pelo menos uma vez depois dos 4 anos de idade;
- 26% contaram que a criança ficou desaparecida por tempo suficiente para causar preocupação;
- entre as crianças que sumiram, 24% correram risco de afogamento e 65% risco de acidente de trânsito;
- os irmãos sem autismo tiveram taxas de fuga bem menores, em todas as idades.
Outro estudo, da Universidade Columbia, de 2017, analisou atestados de óbito nos Estados Unidos entre 1999 e 2014. As mortes por lesões foram proporcionalmente muito mais frequentes entre pessoas autistas, sobretudo em crianças com menos de 15 anos, e o afogamento esteve entre as três principais causas.
São dados dos Estados Unidos, com mais de dez anos. Não há estudos parecidos no Brasil. Mesmo assim, a Academia Americana de Pediatria inclui a tendência a se afastar (wandering) entre as questões de saúde que os profissionais devem acompanhar em crianças autistas. É um tema para conversar com calma com a equipe, sem pânico.
Por que a criança sai
Entender o motivo ajuda a prevenir. Algumas razões comuns:
- Ir em direção a algo que atrai: água, um parque, um trem, um animal, um lugar favorito.
- Fugir de algo que incomoda: barulho, multidão, luz forte, uma tarefa difícil, uma mudança inesperada.
- Explorar: curiosidade, sem perceber o risco.
- Movimento: necessidade de correr ou andar para se regular.
Anotar quando e onde as saídas acontecem, o que veio antes e para onde a criança foi ajuda a identificar padrões. O diário de comportamento do site pode ser usado para esses registros.
Proteger a casa
- Trancas fora do alcance: trincos altos em portas e portões, travas em janelas e telas de proteção.
- Alarmes simples: sensores de abertura ou sinos nas portas avisam quando alguém sai.
- Chaves guardadas: longe da vista e do alcance da criança.
- Portão e muro: confira se não há frestas ou objetos que sirvam de escada.
- Sinais visuais: uma placa de "pare" na porta pode ajudar algumas crianças a lembrar de chamar um adulto.
Nenhuma medida é infalível. Elas funcionam melhor juntas e com supervisão.
Segurança na água
A água atrai muitas crianças autistas, e o afogamento pode ser rápido e silencioso. As recomendações da Academia Americana de Pediatria para crianças pequenas servem de base:
- Cerca nos quatro lados da piscina, com pelo menos 1,20 m de altura e portão que fecha e trava sozinho. Piscinas de plástico e infláveis também precisam de cuidado: esvazie depois do uso.
- Supervisão ao alcance do braço para crianças pequenas na água ou no banho. Em festas, combine um adulto responsável só por olhar a água e faça revezamento.
- Aulas de natação a partir de 1 ano, conforme a prontidão da criança, que inclui aspectos de desenvolvimento. Procure professores com experiência ou disposição para adaptar as aulas.
- Colete salva-vidas adequado em rios, lagos, mar e passeios de barco. Boias de braço não substituem o colete.
- Atenção a caixas d'água, poços, cisternas, baldes e tanques, que devem ficar tampados.
Saber nadar reduz o risco, mas não elimina a necessidade de supervisão.
Identificação e roupas
- Pulseira, plaquinha ou etiqueta com nome e telefone de contato. Se a criança tolerar, pode incluir a informação de que é autista e se comunica pouco com palavras.
- Roupas de cores fortes em passeios facilitam encontrar a criança na multidão. Tire uma foto dela no dia, antes de sair.
- Ciptea: a Carteira de Identificação da Pessoa com TEA, criada pela Lei 13.977/2020, traz nome, foto e contato do responsável. Veja como pedir no guia de direitos.
- Cordão de girassol: a Lei 14.624/2023 instituiu o cordão com desenhos de girassóis como símbolo nacional de deficiências ocultas. O uso é opcional e não substitui um documento.
- Rastreadores: alguns aparelhos com GPS podem ajudar, mas dependem de bateria e sinal. Considere a sensibilidade da criança ao uso.
Avisar vizinhos e escola
Quanto mais gente souber, mais rápido a criança pode ser encontrada. Converse com vizinhos, porteiros e comerciantes próximos. Mostre uma foto, explique como a criança reage a estranhos, o que a acalma e para onde ela costuma ir.
Com a escola, combine como a entrada e a saída são controladas, quem acompanha a criança no recreio e nos passeios e como a família será avisada. Peça que a escola tenha um plano escrito para o caso de a criança sair.
Monte um plano de emergência
Deixe por escrito e compartilhe com quem cuida da criança:
- uma foto recente, atualizada a cada poucos meses;
- descrição física, como altura, peso, sinais e roupas mais usadas;
- como a criança se comunica e reage (se responde ao nome, se foge de pessoas, se gosta de algum som ou música);
- lugares que atraem a criança, principalmente os que têm água, perto de casa e da escola;
- contatos da família e dos serviços de saúde;
- alergias, remédios e condições de saúde.
O que fazer se a criança desaparecer
- Procure primeiro nos lugares de risco, principalmente água próxima (piscina, rio, lago, caixa d'água) e ruas movimentadas. Depois, nos lugares favoritos e esconderijos dentro de casa.
- Ligue para o 190 (Polícia Militar) imediatamente. Não espere: o Estatuto da Criança e do Adolescente determina que a investigação do desaparecimento de crianças seja feita logo após a notificação, e a Lei 13.812/2019 trata a busca de pessoas desaparecidas como prioridade com caráter de urgência.
- Informe que a criança é autista e como ela se comunica e reage. Entregue a foto e a descrição.
- Avise vizinhos, escola e familiares e peça que alguém fique em casa caso ela volte.
- Em caso de afogamento ou ferimento, chame o SAMU (192) ou os Bombeiros (193).
Ao encontrar a criança, mantenha a voz calma, evite toques bruscos e ofereça algo familiar. Depois, quando todos estiverem tranquilos, revejam juntos o que aconteceu para ajustar o plano.
Cuidar de quem cuida
Viver em alerta constante cansa. Dividir a supervisão com outros adultos, contar com a escola e com vizinhos e conversar com a equipe de saúde sobre o comportamento ajudam a reduzir o peso. Um terapeuta ocupacional ou psicólogo pode ajudar a entender o motivo das saídas e a ensinar, aos poucos, formas de pedir para sair, de esperar e de chamar um adulto.
Fontes
- Anderson C e cols. — Occurrence and family impact of elopement in children with autism spectrum disorders, Pediatrics (2012)
- Guan J, Li G — Injury mortality in individuals with autism, American Journal of Public Health (2017)
- Hyman SL, Levy SE, Myers SM; Academia Americana de Pediatria — Identification, evaluation, and management of children with autism spectrum disorder, Pediatrics (2020)
- Academia Americana de Pediatria (HealthyChildren.org) — Water safety for young children
- Presidência da República — Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), art. 208
- Presidência da República — Lei nº 13.812, de 16 de março de 2019 (Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas)
- Presidência da República — Lei nº 14.624, de 17 de julho de 2023 (cordão de girassol)
Este artigo foi útil?
Obrigado pela resposta! Encontrou algum erro? Conte para nós.