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Síndrome de Asperger ainda existe? O que mudou com o DSM-5 e a CID-11

A síndrome de Asperger não é mais um diagnóstico separado.

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Visão geral

A síndrome de Asperger não é mais um diagnóstico separado. Em 2013, o DSM-5 reuniu o Asperger e outros diagnósticos num só, o transtorno do espectro autista, e a CID-11, da Organização Mundial da Saúde, fez o mesmo. Quem foi diagnosticado com Asperger continua sendo uma pessoa autista: o que mudou foi o nome do diagnóstico, não a pessoa. Hoje, o laudo novo traz "transtorno do espectro autista", com a descrição das necessidades de apoio.

O que era a síndrome de Asperger e quem a descreveu

O nome vem do pediatra austríaco Hans Asperger (1906-1980). Segundo o historiador Herwig Czech, da Universidade de Medicina de Viena, Asperger já usava em 1938 a expressão "psicopatas autistas" para um grupo de crianças com características próprias, e publicou um estudo amplo sobre o tema em 1944. Esse trabalho só ganhou reconhecimento internacional nos anos 1980.

Um marco para a difusão do nome foi o trabalho da psiquiatra britânica Lorna Wing. Em 1981, ela publicou na revista Psychological Medicine o artigo "Asperger's syndrome: a clinical account", em que descreveu as características, a evolução e o diagnóstico diferencial da síndrome. No mesmo texto, defendeu incluir a síndrome, junto com o autismo da primeira infância, num grupo mais amplo de condições com diferenças na interação social, na comunicação e na imaginação. Essa ideia ajudou a construir o conceito de espectro.

Na CID-10, que ainda é a classificação em uso no Brasil, a síndrome de Asperger tem o código F84.5. A descrição fala em alterações nas interações sociais semelhantes às do autismo e em interesses e atividades restritos e repetitivos, mas sem atraso de linguagem ou do desenvolvimento cognitivo. A própria CID-10 a descreve como um transtorno de "validade nosológica incerta", ou seja, havia dúvida se era mesmo uma condição diferente do autismo.

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DSM-IV x DSM-5: a fusão dos diagnósticos

Na quarta edição do DSM, o manual da Associação Americana de Psiquiatria, havia vários diagnósticos separados dentro dos transtornos globais do desenvolvimento, entre eles o transtorno autista e o transtorno de Asperger.

O DSM-5, publicado em 2013, juntou quatro diagnósticos num só, o transtorno do espectro autista: o transtorno autista, o transtorno de Asperger, o transtorno desintegrativo da infância e o transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação. Segundo a associação, a mudança refletiu um consenso científico de que eram, na verdade, uma única condição com diferentes níveis de intensidade em duas áreas: comunicação e interação social, e comportamentos, interesses e atividades restritos e repetitivos.

O DSM-5 também trouxe uma orientação clara: pessoas com diagnóstico bem estabelecido de transtorno autista, de Asperger ou de transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação pelo DSM-IV devem receber o diagnóstico de transtorno do espectro autista. Ninguém precisa "provar de novo" que é autista por causa da mudança.

ClassificaçãoComo trata o Asperger
CID-10 (OMS)Diagnóstico próprio, código F84.5, dentro dos transtornos globais do desenvolvimento
DSM-IV (APA)Diagnóstico próprio: transtorno de Asperger
DSM-5 (2013) e DSM-5-TR (2022)Incluído no transtorno do espectro autista, com níveis de suporte e especificadores
CID-11 (OMS)Incluído no transtorno do espectro autista, código 6A02, com subtipos por desenvolvimento intelectual e linguagem funcional

A síndrome de Rett ficou fora do espectro

Na CID-10, a síndrome de Rett também fazia parte dos transtornos globais do desenvolvimento, com o código F84.2. A própria CID-10 a descrevia como um quadro observado em meninas, com desenvolvimento inicial aparentemente normal seguido de perda da linguagem, da marcha e do uso das mãos.

Na CID-11, a síndrome de Rett foi expressamente excluída do transtorno do espectro autista e passou para o capítulo das anomalias do desenvolvimento, entre as condições com deficiência intelectual como característica clínica relevante, com o código LD90.4. Assim, as duas condições são classificadas separadamente.

CID-10 x CID-11: o código 6A02

A CID-11 foi adotada na 72ª Assembleia Mundial da Saúde, em maio de 2019, e entrou em vigor em 1º de janeiro de 2022. Nela, o autismo aparece no capítulo dos transtornos do neurodesenvolvimento, com o código 6A02. O termo "síndrome de Asperger" ainda aparece na classificação, mas apenas remetendo ao 6A02: não tem mais código próprio.

Em vez de dividir o espectro em síndromes, a CID-11 descreve subtipos por duas características: se há ou não transtorno do desenvolvimento intelectual e como está a linguagem funcional. Uma pessoa que antes recebia o diagnóstico de Asperger, por exemplo, provavelmente se encaixaria no 6A02.0, autismo sem transtorno do desenvolvimento intelectual e com alteração leve ou nenhuma da linguagem funcional. A correspondência, porém, não é automática: depende de nova avaliação.

No Brasil, a tradução da CID-11 para o português está disponível no site da OMS desde fevereiro de 2024. Segundo a Nota Técnica nº 91/2024 do Ministério da Saúde, o uso da CID-11 nos sistemas de vigilância em saúde está previsto a partir de janeiro de 2027. Até lá, a CID-10 continua em uso, e por isso ainda é comum ver laudos com os códigos F84.0 ou F84.5.

Quem foi diagnosticado antes continua autista

Uma dúvida comum de famílias e adultos é se o diagnóstico antigo "perdeu a validade". Não perdeu. A pessoa diagnosticada com Asperger é uma pessoa autista, e a Lei nº 12.764/2012 considera a pessoa com transtorno do espectro autista pessoa com deficiência para todos os efeitos legais.

Na prática, alguns órgãos e planos de saúde podem pedir um relatório atualizado, com o código da CID usado hoje e a descrição das necessidades atuais. Isso não é um novo diagnóstico, e sim uma atualização do documento. Converse com o profissional que acompanha a pessoa. O guia de direitos ajuda a saber o que cada benefício exige.

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Identidade e respeito

Muitas pessoas diagnosticadas com Asperger construíram sua identidade com esse nome e se apresentam como "Asperger" ou "aspie". Essa escolha pessoal merece respeito. Ninguém precisa ser corrigido ao falar de si mesmo.

Ao mesmo tempo, outras pessoas preferem deixar o termo de lado. Uma das razões é histórica: a pesquisa de Herwig Czech, publicada em 2018 na revista Molecular Autism, com base em documentos de arquivo, mostrou que Hans Asperger se acomodou ao regime nazista em Viena, legitimou publicamente políticas de "higiene racial" e, em várias ocasiões, cooperou com o programa de "eutanásia" infantil. O autor sugere que o uso do nome leve em conta esse contexto.

A regra mais simples é perguntar à pessoa como ela prefere ser chamada e usar "pessoa autista" ou "pessoa com autismo" quando não souber.

Por que não usar "autismo leve"

É comum ouvir que Asperger era o "autismo leve". A expressão é imprecisa por três motivos:

  • Esconde dificuldades reais: muitas pessoas que recebiam o diagnóstico de Asperger enfrentam ansiedade, exaustão, crises e grandes barreiras na escola e no trabalho.
  • Confunde linguagem com necessidade de apoio: falar bem não significa precisar de pouco apoio.
  • Não corresponde às classificações: o DSM-5 usa níveis de suporte, e a CID-11 usa desenvolvimento intelectual e linguagem funcional. Nenhum dos dois fala em "leve".

Também é uma simplificação dizer que Asperger é o mesmo que o nível 1 de suporte. Os dois conceitos nasceram em sistemas diferentes, e uma pessoa antes diagnosticada com Asperger pode precisar de mais apoio em uma área do que em outra. Para entender os primeiros passos depois de um diagnóstico, veja a cartilha Primeiros caminhos.

Fontes