Notícias sobre autismo

M-CHAT-R/F: como funciona a triagem de autismo, a pontuação e o que fazer depois

O M-CHAT-R/F é um questionário de triagem para autismo respondido pelos pais ou responsáveis de crianças de 16 a 30 meses.

Artigo Atualizado em 🕒 7 min de leitura

Visão geral

O M-CHAT-R/F é um questionário de triagem para autismo respondido pelos pais ou responsáveis de crianças de 16 a 30 meses. Ele tem 20 perguntas sobre comportamentos do dia a dia e, conforme a pontuação, indica risco baixo, médio ou alto. No risco médio, o profissional faz uma entrevista de seguimento; no risco alto, a criança deve ser encaminhada para avaliação. O M-CHAT-R/F não dá diagnóstico: ele mostra quem precisa ser avaliado com mais atenção.

O que é o M-CHAT-R/F e de onde ele vem

A sigla vem do inglês Modified Checklist for Autism in Toddlers, Revised, with Follow-Up, ou Lista de Verificação Modificada para Autismo em Crianças Pequenas, versão revisada e com entrevista de seguimento. Foi criado pelas pesquisadoras Diana Robins, Deborah Fein e Marianne Barton, nos Estados Unidos.

A versão original, o M-CHAT, tinha 23 perguntas. Na revisão, três itens que funcionavam mal foram retirados e outros foram reescritos para ficar mais claros, resultando nas 20 perguntas atuais. O estudo de validação da versão revisada, publicado em 2014 na revista Pediatrics, acompanhou mais de 16 mil crianças triadas nas consultas de 18 e 24 meses.

No Brasil, a tradução para o português e a validação foram publicadas na Revista Paulista de Pediatria em 2023, com aprovação de especialistas e boa compreensão pelas famílias.

Publicidade

Para quem serve e quem responde

  • Idade: crianças de 16 a 30 meses, faixa em que o instrumento foi validado.
  • Quem responde: pais ou responsáveis que convivem com a criança no dia a dia.
  • Quem aplica e interpreta: qualquer profissional de saúde treinado, como pediatra, médico de família, enfermeiro ou outro membro da equipe.
  • Formato: perguntas de sim ou não sobre como a criança costuma agir, por exemplo na forma de brincar, de se comunicar e de reagir a pessoas e sons.

Responder às 20 perguntas leva poucos minutos. As perguntas pedem o comportamento habitual da criança, e a linguagem foi simplificada na versão revisada, com exemplos para facilitar a compreensão.

Como funciona a pontuação

Cada resposta que sugere risco vale um ponto. A soma leva a uma de três faixas, definidas no estudo de validação dos autores:

PontuaçãoFaixaO que fazer
0 a 2Risco baixoNão precisa de outra etapa, a não ser que existam outras preocupações. Se a criança tiver menos de 24 meses, repetir a triagem por volta dos 2 anos.
3 a 7Risco médioO profissional aplica a entrevista de seguimento, revendo com a família as respostas que pontuaram, com exemplos. Se continuar com 2 pontos ou mais, a criança deve ser encaminhada para avaliação.
8 a 20Risco altoEncaminhar logo para avaliação diagnóstica e para intervenção. Nessa faixa, a entrevista de seguimento pode ser dispensada.

No estudo original, cerca de 93% das crianças ficaram no risco baixo, 6% no médio e 1% no alto.

A entrevista de seguimento

A segunda etapa existe para reduzir falsos positivos, ou seja, crianças que pontuam no questionário mas não são autistas. Na entrevista, o profissional pergunta sobre cada item que pontuou, com exemplos concretos do dia a dia. Muitas vezes uma resposta "não" vira "sim" quando a família lembra situações em que a criança faz aquilo.

Mesmo assim, um resultado positivo não significa autismo. No estudo de validação, entre as crianças que continuaram positivas depois das duas etapas, cerca de 48% receberam diagnóstico de autismo e cerca de 95% tinham algum atraso ou preocupação no desenvolvimento. Ou seja: quase sempre há algo que merece atenção, mesmo quando não é autismo.

A versão brasileira também foi testada. No estudo de validação publicado em 2023, com 75 crianças de 1 a 6 anos, a sensibilidade foi de 88,2%, parecida com a do instrumento original: a maioria das crianças com diagnóstico prévio de autismo pontuou acima do corte. A precisão geral foi menor, o que os autores atribuíram à coleta feita pela internet e à falta de confirmação clínica dos diagnósticos. Por isso, os resultados reforçam a ideia de que o questionário serve para triar, e não para concluir.

Triagem não é diagnóstico

Esse é o ponto mais importante. A Linha de Cuidado do Ministério da Saúde (2025) lembra que o M-CHAT pode dar falsos positivos e que nenhum resultado isolado basta para um diagnóstico. O diagnóstico depende de avaliação clínica por profissionais qualificados, com a história da criança, observação e informações da família e da escola.

O contrário também vale: um resultado de risco baixo não garante que a criança não seja autista. Alguns sinais aparecem mais tarde, e o questionário não substitui o olhar atento de quem convive com ela. Se a preocupação continuar, fale de novo com o profissional.

Onde o M-CHAT-R/F aparece no SUS

Segundo a Linha de Cuidado do Ministério da Saúde, o M-CHAT-R/F está incluído na Caderneta da Criança e no Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) do e-SUS APS. A orientação é aplicar a triagem formal em todas as crianças na consulta de 18 meses, mesmo sem suspeita, e antecipar para 16 meses quando houver preocupação. O teste pode ser repetido em intervalos regulares ou quando houver dúvida.

A Sociedade Brasileira de Pediatria também recomenda o M-CHAT-R/F para crianças de 16 a 30 meses. A Academia Americana de Pediatria recomenda triagem específica para autismo aos 18 e aos 24 meses.

Publicidade

E a lei? A Lei nº 13.438/2017 incluiu no Estatuto da Criança e do Adolescente a obrigação de aplicar a todas as crianças, nos primeiros 18 meses, um protocolo ou instrumento para detectar risco ao desenvolvimento psíquico nas consultas pediátricas. A lei não cita o M-CHAT pelo nome: ela fala de forma geral em protocolo. O M-CHAT-R/F é o instrumento adotado na Caderneta e no prontuário do SUS.

Cuidados com testes online

É comum encontrar versões do M-CHAT em sites e aplicativos. Antes de usar, saiba que:

  • o instrumento tem direitos autorais, e os autores pedem que título, perguntas e instruções não sejam alterados; versões modificadas podem dar resultados errados;
  • a versão oficial em português pode ser obtida no site dos autores, mchatscreen.com;
  • o questionário sozinho cobre só a primeira etapa; a entrevista de seguimento precisa de um profissional;
  • sites que dão "laudo", "grau" ou "nível" de autismo a partir de um questionário não são confiáveis;
  • um resultado on-line, positivo ou negativo, deve ser levado ao profissional de saúde, nunca usado para concluir sozinho.

O que fazer depois do resultado

Seja qual for a pontuação, estes passos ajudam:

  1. Converse com a equipe da UBS ou com o pediatra sobre o resultado e sobre o que você observa em casa.
  2. Peça para fazer a entrevista de seguimento se o resultado foi de risco médio e ela ainda não foi feita.
  3. Não espere o diagnóstico para estimular. A Linha de Cuidado orienta iniciar a intervenção precoce assim que houver alteração no desenvolvimento ou triagem positiva, sem aguardar a confirmação.
  4. Peça avaliação da audição se a criança responde pouco ao nome ou tem atraso de fala.
  5. Repita a triagem se ela foi feita antes dos 24 meses com resultado baixo e você continua preocupado.

Para a consulta, leve a Caderneta da Criança, anotações com exemplos e, se possível, vídeos curtos de brincadeiras e momentos difíceis. O diário de comportamento e sono ajuda a registrar o que acontece no dia a dia. Para entender os passos seguintes, veja também a cartilha Primeiros caminhos.

Uma palavra para as famílias

Responder ao questionário pode gerar ansiedade. Responda com calma, pensando em como a criança costuma agir, e não em como você gostaria que ela agisse. Um resultado de risco não é uma sentença: é uma porta para entender melhor seu filho e buscar apoio cedo. E, se o resultado for baixo mas algo continuar incomodando, sua percepção conta. Volte a conversar com a equipe.

Fontes